Feminilidade, amor e relacionamento

A mulher que busca uma transformação em seu papel social, considerando a diversidade entre o mundo masculino e feminino sem equivalências de superioridade ou inferioridade, enfrenta uma tarefa difícil

"Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória

Mudando como um Deus o curso da história

Por causa da mulher"

Gilberto Gil

Ao tratar de amor e relacionamento é importante frisar, antes, que as uniões são compostas, muitas vezes, por um dilema básico que é a confusão entre intimidade e fusão. "As forças do sentimento de estar unido a outrem originaram-se do desejo humano natural de proximidade" ... e "conduzem à busca de complementação" (Carter & McGoldrick, 1989). Porém, os cônjuges tentam desafiar uma condição natural que é a de ser incompleto e se conduzem à fusão, o que acarreta, ao contrário do que se supõe, ao distanciamento.

Isto porque há uma diferença entre estabelecer uma relação íntima com outra pessoa e usar um relacionamento de casal para completar o "eu" e melhorar a auto-estima.

Do ponto de vista do desenvolvimento feminino, as mulheres foram criadas para considerarem "normal" perderem-se num relacionamento, "desistirem de si mesmas" e é esperado que a mulher una-se de alguma forma à identidade do marido, aumentando a dificuldade de diferenciar-se e manter sua identidade separada.

Os homens, por sua vez, eram criados para considerarem a intimidade como assustadora, alimentando e atendendo à expectativas sociais de "independência". Estes sistemas juntos funcionam para inibir o desenvolvimento de relacionamentos íntimos que permitam a existência de diferenças.

Desta forma, a mulher que busca uma transformação em seu papel social no qual o feminino deixa de estar sujeito a uma relação de dominação e parte para uma relação de parceria, considerando a diversidade entre o mundo masculino e feminino sem equivalências de superioridade ou inferioridade, enfrenta uma tarefa difícil, sofrendo a influência invisível da cultura, centrada no masculino, que desencoraja o desenvolvimento feminino natural - aquele capaz de cuidar, defender a não violência, sentir compaixão, etc... O livro chinês Tao The Ching descreve uma época quando o Yin (princípio feminino) ainda não era governado pelo Yang (princípio masculino), como uma época harmoniosa e a humanidade vivia em paz.

Hoje, enquanto a menina de 8 ou 9 anos pode ter ser próprio estilo, sensibilidades, alegrias e temores, conforme cresce e torna-se mulher, distancia-se de suas raízes femininas e "a nova mulher" dificilmente pode contar com o modelo de sua mãe para a amparar. Aquelas que buscam romper as barreiras dos papéis domésticos são forçadas a se conformarem com um modelo masculino, que se atém à sua competência e espera que se ajuste ao modelo corporativo, apoiando o empenho de uma mulher em ser parecida com um homem. Assim, distancia-se do âmago de sua identidade e, quando por uma crise conjugal, percebe que não a tem mais (perdeu sua identidade), percebemos que contava com o casamento para lhe dar um senso de "eu".

Portanto, manter a menina criativa, independente e feminina que há dentro de cada mulher é importante para a sobrevivência da relação e na relação, pois a fusão que, ilusoriamente, é imposta como modelo, põe em risco a identidade feminina.

A feminilidade, culturalmente, foi lenta em afirmar seus valores contra os do patriarcado e dos modelos masculinos (por razões históricas e outras que merecem atenção), mas ao reivindicar o direito inato ao feminino impulsionará um renascimento cultural de si e de todos, ajudando a humanidade a evoluir e restaurar a harmonia e a paz.

Referência(s)

Mulher - em busca da feminilidade perdida, Betty Carter & Mônica McGoldrick, 1989.

Autor(a)

Adriana Scatone Bezerra

Adriana Scatone Bezerra é psicóloga - CRP 61768 / 06
Consultório na zona Oeste de São Paulo

Contato

Tel. (11) 3022-5674 - ascatone@gmail.com


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