Clube da Luta

Clube da Luta
Clube da Luta

Baseado no livro de Chuck Palahniuk Clube da Luta traz uma visão completamente diferente de tudo que você já viu sobre a sociedade e a mente humana.

O filme “Clube da Luta”, dirigido por David Fincher e baseado no livro de Chuck Palahniuk em que estrelam Brad Pitt e Edward Norton poderia ser analisado sob várias perspectivas (tanto técnicas quanto sociais ou psicológicas) sem, no entando, esgotar sua fonte. Pretendo aqui expor minhas observações sobre o caráter social que engloba o filme, sem deixar de lado a questão do indivíduo e muito menos com a pretensão de esgotar o assunto.

Apesar de violento (talvez choque os mais sensíveis) o filme é de uma riqueza imensa para todos que se dispuserem a compreender com mais profundidade as questões abordadas por Chuck Palahniuk.

Uma pincelada sobre o filme

“Clube da luta” foi o nome dado a um grupo de pessoas que se reuniam para lutar entre si, não com o objetivo de encontrar um vencedor, mas como uma forma de se sentir vivo, de descarregar as frustrações da vida sem sentido. A luta é um meio de “libertação” para os homens que participam do clube, libertação da sociedade como imposta a todos, libertação da hipocrisia, do cinismo, do tédio. Arriscando-me em dizer que ”apesar dos ideais deste clube serem universais”, o clube tem um caráter marginal, consistindo de reuniões relativamente secretas. As regras do clube deixam bem claro isto:

  1. Você não fala sobre o clube da luta;
  2. Você não fala sobre o clube da luta;
  3. A luta só acaba quando alguém disser “pare” ou perder os sentidos;
  4. Só duas pessoas em cada luta;
  5. Uma luta de cada vez;
  6. Sem camisa, sem sapatos;
  7. As lutas duram o tempo que for necessário;
  8. Se esta é a sua primeira noite no Clube da Luta, você tem que lutar.

Apesar das duas primeiras regras restringirem a divulgação do clube, ele cresce a cada dia, tornando-se um grupo organizado e espalhando-se por várias cidades. Talvez, levando-se em conta a personalizade dos protagonistas do filme, a idéia era justamente o contrário do que pregavam as regras, ou seja, a restrição na verdade foi o mecanismo adotado para sua expansão.

Lutar é estar vivo, estar vivo é saber que estamos aqui e agora

Mas como poderia ser, afinal, a luta um meio de libertação? Para tentar justificar este comportamento é interessante citar o oriente. Suas artes marciais são um paralelo para que possamos compreender este fato tão curioso e, aparentemente, sem sentido, contraditório.

Uma grande parte das artes marciais de origem oriental possuem uma filosofia. Ou é o auto-controle, ou a concentração, respeito, integração com a natureza, valores nobres universais e etc. Sejam quais forem os valores em jogo a luta é uma representação física destes.

Claro que existem controvérsias quanto a violência e etc. mas muitas vezes apenas a dor ou sofrimento (mesmo físico) são meios de aprendizado. Quantas vezes não caimos quando crianças até aprender a andar com desenvoltura? A dor das quedas com certeza nos ensinaram muitas coisas sobre o equilíbio. Claro que a dor não necessáriamente é o único caminho para se aprender algo porém ele tem uma importante função para certos tipos de aprendizado.

Algumas filosofias ou religiões orientais também utilizam a dor como um meio de auto conhecimento. Uma vez vi um documentário sobre um praticante de meditação que procurava praticar debaixo de uma cachoeira durante o inverno japonês, ou seja, alguns graus abaixo de zero. Na época me perguntava por que alguém faria aquilo em nome de uma religião ou prática meditativa e apenas muitos anos depois percebo o motivo, de certa forma o mesmo que me fez compreender um aspecto importante de “Clube da Luta”.

O frio extremo, no caso do homem que meditava debaixo da cachoeira, o fazia “perceber” ou “sentir” algo muito importante para os adeptos ou praticantes do budismo, por exemplo, que se chama “atenção plena”. Em termos gerais atenção plena é estar “Aqui” e “Agora”, sentindo e vivendo o momento, algo como o “Carpe Dien” porém muito mais profundo e complexo do que o lugar comum a que a expressão nos induz. Quem estiver interessando recomento procurar informações a respeito da chamada “atenção plena”.

Bem, o que podemos falar então sobre a luta em sí? Porque os homens do filme lutavam para “se libertar”? Para quem já brigou alguma vez, ou na escola ou em qualquer lugar e mesmo quem pratica um esporte de luta acredito já ter percebido uma coisa interessante. No momento “da briga”, sua atenção está toda voltada para aquele momento. Se você se distrai pensando no que vai acontecer ou no que aconteceu seu oponente pode lhe dar um soco e você não vai gostar disto. Por isto lutar pode significar estar plenamente atento, naquele momento (esta é uma conclusão minha e não do budismo, que prega a não violência). Além deste aspecto a dor física também para muitos é um meio de se sentir “vivo”. Só sente dor quem não está morto, certo? Acredito que sim.

Lutar não é competir

A vida cotidiana nos faz, muitas vezes, perder esta linha, este sentimento de que vivemos. Na maior parte do tempo apenas  sobrevivemos e é disto que os homens do filme procuravam fugir, fugir da simples sobrevivência e se sentirem vivos. A luta e a dor, na visão do filme, pode ser uma forma de resgatar o “ser humano” perdido na burocracia do dia a dia, perdido no consumo, nas responsabilidades de pagar as dívidas que muitas vezes foram contraidas para se continuar imerso no “sobreviver”.

Porém alguém deve estar se perguntando: “Então você está ensinuando que devemos começar a brigar para sermos felizes ou nos tornarmos mais humanos?”

Em absoluto, inclusive minha posição sobre a violência é de que ela é abominável e que sua prática deveria ser abolida inclusive de eventos internacionais, como o boxe nas olimpiadas. Não devemos nos prender ao conceito de que exite apenas um meio para tudo, e isto é um erro tremendo, em minha concepção. No filme, os homens lutavam pois era o meio que eles encontraram para se “libertar” mas veja o caráter desta luta. Ela não tinha vencedores, não era uma competição, ao contrário de muitas lutas que conhecemos.

Assim como a luta física, existem inúmeras atividades ou coisas que são extremamente violentas e que não necessáriamente envolvem socos. A violência emocional, abuso sexual, assédio moral, competição brutal no trabalho, imposição do mercado/sociedade e etc. são alguns tipos de violencia a que muitos de nós estão sujeitos e que não envolvem uma gota de sangue ou necessariamente força física.

Segundas intenções

Mas as intenções do clube vão se alterando, sabe-se lá se intencionalmente ou apenas fruto dos “consequentementes”. Seus participantes aos poucos vão cumprindo “missões” que envolvem desde apanhar de um estranho na rua até “desenhar” smiles incendiando prédios. A intenção do grupo, através de seu líder, parece querer “abraçar” com seus tentáculos, cada vez maiores, uma nova fatia da população através do choque, utilizando-se de métodos cada vez menos convencionais e megalomaníacos, algo que talvez poderia até soar como “os fins justificam os meios”.

Porém uma coisa interessante surge nesta história. O clube que nasceu como uma espécie de “meio de libertação” agora cria uma nova forma de cegueira. Um agir que aos poucos começa a não ser questionado, um agir que, de certa forma, retoma a velha forma do que os próprios membros fugiam. Neste ponto podemos parar para pensar um pouco sobre vários aspectos e implicações. O que antes era a libertação começa a prender. Regimes de governo utilizaram à exaustão tais métodos. Com a “boa intenção” da liberdade criam uma nova prisão. Dai podemos nos questionar então: “como nos libertar?” ou “O que é a liberdade?” Será a liberdade um regime, uma facção, um grupo, um ato, um pensamento?

Homens modernos, dilemas antigos

O homem moderno vive este dilema: Para onde correr, afinal? Você achou um meio de se libertar, ser feliz? Compre-o então! Você encontrou a solução para a felicidade? Venda-a em fascículos.

Os personagens do filme parecem viver em um conflito entre liberdade e prisão, mas sem conflito, sem sentimentos, na verdade que sofre o conflito é o espectador. O conflito está nas forças que dirigem a sociedade, os homens em sí não possuem conflito. Mas qual o preço para ser livre? Estou disposto a pagar o preço com minha própria liberdade? Acredito ser este um dos sentimentos com que fiquei depois de assistir o filme. Trocar uma liberdade (e consequentemente uma prisão) por outra.

Acredito que “Clube da Luta” possui tantas facetas a serem analisadas que poderiamos escrever uma tese. Pena não ter tempo para fazer isto pois, com certeza, valeria a pena assim como assistir ao filme vale por cada segundo!

Autor(a)

Daniel Pereira

Formado em Física / Astrofísica pela Universidade de São Paulo. Fez cursos nas faculdades de Filosofia, Geologia e Matemática na Universidade de São Paulo. Fez cursos na área de artes plásticas e história da arte no Centro Cultural São Paulo. Também frequentou o curso de Introdução a Psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae. Atua na área de tecnologia e web desenvolvendo soluções voltadas para várias áreas do conhecimento, incluindo pesquisa com redes sociais. Atualmente atua para um grande portal de notícias.

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