O escafandro e a borboleta - será que se vê melhor com dois olhos?

O Escafandro e a BorboletaRealmente o ser humano é muito peculiar. Digo isto depois de ter assistido ao filme “O escafandro e a borboleta”. O filme tem como protagonista Jean-Dominique Bauby, editor da revista Elle. Jean é do tipo de pessoa que gosta de curtir a vida, de estar sempre com mulheres lindas e andar em carros possantes, porém, como até já vimos muito no cinema, ele sofre um derrame que o deixa completamente paralisado, lhe restando apenas os movimentos de seu olho esquedo e a audição. Esta experiência o faz ver as coisas de outra forma (como seria de se esperar), mas sem perder o bom humor.

Eu sei que este enredo tem tudo para ser mais um daqueles clichês cinematográficos que já viraram motivo até de chacotas por parte dos cinéfilos mais “puristas” se não fossem dois detalhes: o fato da história ser real e do diretor do filme, Julian Schnabel, se utilizar de um recurso interesantissimo para filmar. Durante pelo menos os 20 minutos iniciais do filme o espectador tem a sensação de estar vendo como o protagonista da história via, apenas com seu único olho sadio.

A perspectiva que o filme adquire é fantástica, nos dando a sensação de impotência diante dos acontecimentos que ocorriam em torno de sua cama. Nem mesmo o protagonista sabia o que havia ocorrido, já que sua consciência se apresentava completamente lúcida e sem a lembrança do momento do derrame. A agonia da impotência é algo marcante no filme até que, aos poucos, seu olho se torna o único meio de comunicação entre o interior e o exterior e é exatamente por meio deste que Jean-Dominique escreve sua história, através de piscadas e de um sistema de codificação.

Além destes dois elementos que citei tenho que falar de um terceiro; a atuação de Max von Sydow como o pai de Jean. Para mim uma das melhores interpretações que já vi no cinema. Apesar da curtíssima aparição a força de sua expressão é de tal forma arrebatadora que percebi finalmente porque Ingmar Bergman fez tantos filmes como ele.

Mas o que quis dizer com minha frase lá do começo afinal?

Bom, assistir a um filme destes faz com que você pense em tais dificuldades, como seria se fosse com você e etc. e logo toma conta do espírito uma espécie de agradecimento interior por ter seus movimentos, por poder sentir o vento, andar, tomar um café depois da sessão sem precisar de tubos ou enfermeiras.

Mas isto não dura mais que alguns minutos. Logo o cotidiano reassume seu domínio e aquele filme, que deveria ter sido um aprendizado sobre os valores da vida logo desaparece na primeira discussão com o flanelinha que “guardou” seu carro.

Isto é peculiar e me deixa profundamente irritado, o fato de nunca agradecermos por nada, apenas desejar, pedir, querer e as coisas que muitas vezes são as mais importantes não conseguimos enxergar…nem com os dois olhos sãos!

Procure assistir o filme e verifique se este mesmo sentimento se apodera de você e por quanto tempo! Vale pelo filme, vale pela experiência.

Referência(s)

O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon)
País: Estados Unidos/França
Direção: Julian Schnabel
Roteiro: Jean-Dominique Bauby (romance), Ronald Harwood (roteiro)
Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Anne Consigny, Patrick Chesnais, Niels Arestrup, Olatz López Garmendia, Max von Sydow

Autor(a)

Daniel Pereira

Formado em Física / Astrofísica pela Universidade de São Paulo. Fez cursos nas faculdades de Filosofia, Geologia e Matemática na Universidade de São Paulo. Fez cursos na área de artes plásticas e história da arte no Centro Cultural São Paulo. Também frequentou o curso de Introdução a Psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae. Atua na área de tecnologia e web desenvolvendo soluções voltadas para várias áreas do conhecimento, incluindo pesquisa com redes sociais. Atualmente atua para um grande portal de notícias.

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