Bitcoin, o novo pulso monetário da Internet

Bitcoin, uma moeda que nasceu na Internet
Bitcoin, uma moeda que nasceu na Internet

Em meio as muitas iniciativas que vagam pela Web o BitCoin causou grande burburinho por ser uma moeda digital em que ninguém pode saber quem é você e que não necessita de bancos para existir. Analisamos alguns dos aspectos desta nova moeda e... ficamos muito impressionados.

É Janeiro de 2009 e um misterioso hacker chamado Satoshi Nakamoto, cuja identidade nunca foi revelada (e nem se sabe se é apenas uma pessoa ou um grupo), lança um programa na Web que tem por finalidade criar uma moeda global digital, uma moeda livre de controles governamentais, livre da centralização dos bancos, operadoras de cartão e corporações. Além disto ela é uma moeda anônima e segura, protegida pelo que é chamado de criptografia.

Nasce assim o BitCoin!

Isto pode muito bem parecer um roteiro “Hollywoodiano” e o fato de seu suposto autor, Satoshi Nakamoto, haver repentinamente desaparecido em 2010 dos fóruns que tratam do assunto aumentam ainda mais o mistério e as especulações.

Em meio ao mundo de coisas que acontecem na Internet, seja na superfície em que todos nós navegamos, seja nas profundezas da Deep Web, o BitCoin começou a ganhar um grande destaque junto à comunidade “cypherpunk” e “libertária” justamente pelas características citadas acima (descentralização, anonimato, segurança). Somado a isto um outro elemento parece ter ajudado sua recente disseminação: crise econômica que atinge principalmente a Europa.

Analistas tem afirmado que o BitCoin tornou-se uma moeda de fuga para alguns investidores, assim com o ouro é utilizado até hoje, mas talvez a descrença cada vez maior nas instituiçoes e governos, que a princípio poderiam mostrar-se fortes e incorruptíveis, parecem que são coniventes e alimentam a sensação de crise. BitCoin pode ter sido um catalisador não só para “outsiders” do mercado, mas para gente comum que busca novas e melhores alternativas de investimento e de anominato.

Podemos notar isto em outros movimentos não necessariamente ligados ao mercado como os que buscam a formação de grupos ou comunidades que visam a descentralização de suas vidas, o desapego e resiliência com relação ao governo e às corporações. Exemplos disto são as Transition Towns.

Mas ficar livre de governos e corporações é algo complicado, especialmente pelo fato de que todos nós precisamos de dinheiro para efetuar nossas transações comerciais. O escambo poderia ser uma alternativa porém este possui alguns complicadores relacionados à sua versatilidade. Por outro lado o dinheiro é extremamente prático.

É neste aspecto que o BitCoin entra em nossa história ecológica bonitinha acima, e não só nela. Esta nova moeda digital poderá entrar na vida de todas as pessoas, independente de se elas querem salvar o mundo e viver em comunidades, serem cidadãos medianos comuns, ou se querem “ligar o dane-se” e sair por ai barbarizando.

Falamos muito e ainda não explicamos exatamente do que se trata o BitCoin certo? Então vamos lá.

O que é Bitcoin

Muitos falam como se o BitCoin fosse a primeira moeda “virtual/internética” inventada mas em realidade não é. Houveram outras iniciativas antes dele que esbarraram em dois problemas: centralização (um terceiro sempre tinha de intermediar as transações) e os “gastos duplicados", ou seja, evitar que com uma mesma moeda um usuário possa efetuar transações duas pessoas diferentes.

A revolução do BitCoin é resolver estes dois problemas e ainda introduzir muitos outros benefícios para seus usuários.

Como dito no site do projeto, as transações convencionais que utilizam instituições são baseadas em “trust” ou “confiança” enquanto as transações do BitCoin são baseadas em “Verdade Matemática”.

Seu modelo é baseado em criptografia e conexões peer-to-peer (conexão direta entre usuários). Sendo assim todos os usuários possuem uma cópia das transações monetárias de todos os demais usuários. Isto torna todas as transações transparentes, apesar de os usuários serem anônimos. Toda vez que uma transação é feita uma assinatura é incorporada aos BitCoins envolvidos. Depois disto esta transação é enviada para uma rede dispersa de “verificadores” que validarão a transação, ou seja, o que garante que João pagou X BitCoins para Pedro e que ele não poderá usar estes mesmos X para pagar ao Marcelo é esta rede de verificadores.

O detalhe interessante é que estes verificadores fazem parte da propria comunidade que utiliza a moeda, ou seja, são independentes. A função de verificar as transações gera alguns BitCoins para estes como recompensa. Assim novas moedas são introduzidas aos poucos na rede. Estes verificadores são chamados na comunidade como “miners” ou “mineradores”.

A quantidade de moedas geradas possui um limite pré-estabelecido que é de aproximadamente 21 milhões que são ‘liberados’ aos poucos (de 8 em 8 minutos) até aproximadamente o ano de 2140. Isto foi feito para que a moeda não sofresse um processo inflacionário, o que parece não ter funcionado nos ultimos tempos, pois assim, como qualquer mercadoria ou ativo com flutuações livres de preço são submetidas à lei da oferta e demanda, e o rápido sucesso da moeda e a seu valor atrativo geraram um efeito cascata de maior procura e como sua produção é escassa e controlada, subitamente sua cotação com relação à outras moedas internacionais foram para as alturas.

Gráfico de evolução do BitCoin

Para que uma pessoa possa usar o BitCoin ela precisa baixar um programa. Ao instalar em seu computador ela está apta a usá-lo. Ele cria uma conta como se fosse uma carteira, só que sem necessidade de identificação por parte do usuário, é gerado um código criptografado que pode se parecer assim 183i7wvx3yT1wcjxsfykoefFdRAzDqsHdz (sinta-se à vontade para fazer um depósito pois esta conta é verdadeira :-) ).

Para conseguir os BitCoins existem três maneiras diferentes: através de transações comerciais (vendendo produtos ou serviços), através de câmbio convertendo dólares ou moedas nacionais (veja as cotações em http://bitcoincharts.com/markets/) em BitCoins ou por meio do “mining” ou “mineração” que citamos acima.

A mineração é feita através de complexos algoritmos matemáticos e exige grande poder de processamento, ou seja, nosso simples computador não terá poder suficiente para processar e conseguir muitos BitCoins. Existem atualmente grupos de usuários que se unem para gerar as moedas conjuntamente, aumentando o poder de processamento pelo compartilhamento de máquinas. Outra maneira é adquirindo clusters de maquinas altamente especializadas na tarefa de minerar, o que exige muito dinheiro, seja para a aquisição do hardware, seja para pagar a energia consumida (alguns clusters podem custar até $6.000 e gastos com energia podem chegar a $150.000) porém o alto valor da moeda parece recompensar o investimento, similar a dificuldade da extração do petróleo da camada pré-sal.

Este é um exemplo de cluster especializado, o “Icarus”

Para facilitar colocamos uma lista de características do BitCoin

  • Descentralizado: Não existe a necessidade de um banco ou instituição que centralize as operações. A transferência de BitCoins entre os usuários é direta, sem a necessidade de terceiros.
  • Por sua natureza descentralizada ele pode ser utilizado em qualquer parte do mundo.
  • Seguro: Todas as transações são feitas através de criptografia. Isto garante a segurança do sistema.
  • As transações são públicas: A quantidade de BitCoins que cada um possui em sua carteira é um consenso da comunidade.
  • Anônimo: Você não precisa abrir uma conta utilizando seus dados ou mesmo se identificar. Basta utilizar o programa. Desta forma, apesar das transações serem públicas, o usuário é anônimo.
  • Open Source: Qualquer pessoa pode ver o código fonte do programa. Desta forma seu funcionamento fica transparente para a comunidade.

Mas por ser tão “virtual” não seria este o principal ponto de uma possível insegurança, já que “tudo são bits”?

Como funciona o sistema monetario

Não sei se você já pararam para pensar no dinheiro, e falamos de “como ganhar mais dinheiro” e nem “como gastar meu dinheiro”. Estou falando sobre “o que é o dinheiro”. Sim, o que é o dinheiro? Se pararmos para pensar bem o dinheiro ... não é nada! Explicamos:

O dinheiro, no final das contas, é algo virtual, ele não existe de verdade. Aqueles números que você vê quando vai ao caixa eletrônico e verifica seu saldo não passam de bits, registros eletrônicos em um grande computador em meio a outros milhares em seu banco. Não existe um cofre onde as suas notinhas de dinheiro estão contadinhas lá, guardadas e seguras, não! Este dinheiro só existe porque existe, em algum lugar, um registro dizendo: “João tem R$ 100,00 em sua conta”.

Podemos pensar que este problema se resolve ao sacar todo seu dinheiro do banco. Sim, pois já que agora eu sei que ele é apenas um monte de números dentro de um computador é melhor me prevenir e pegar as notas “reais”.

Ledo engano...isto não vai te ajudar muito mais pois, também, aquelas notas que você retira do caixa eletrônico e que lhe parecem tão reais e valiosas são, na verdade, papel. O que dá valor a elas não é o papel e sim o que o mercado e os bancos centrais dos países querem (antes dos anos 70 era utilizado o padrão ouro mas este sistema foi derrubado pelos americanos).

Na Alemanha do pós guerra, por exemplo, para se comprar alguns paezinhos era necessário levar o dinheiro em carrinhos de mão! SIM, em carrinhos de mão pois o “papel” que era o antigo Marco estava tão desvalorizado que só com muita força no braço se poderia ter um café da manhã razoável.

Assim podemos perceber como o dinheiro, apesar de toda a praticidade, é algo virtual, assim como este texto e este site, o Ser Melhor, também o são, ou seja, virtuais, porém nem por isto você deixa de ler o que está escrito aqui, pois ele possui um valor para você, assim como o dinheiro, que possui um valor que lhe dá utilidade.

Sendo assim não há motivos para desespero, seu dinheiro está bem “registrado” aonde está.

O que esta história chata nos ajuda a entender é que uma moeda como o BitCoin, dita desde o começo como virtual, é tão “virtual” quanto o dinheiro que já utilizamos. A questão em voga é: o que dá valor ao BitCoin?

O que dá valor a ele é o consenso de sua utilização e a lei da oferta e procura, mas aqui que justamente pode residir o perigo da ruína da moeda. Um interesse irracional pela mineração ou pelas trocas entre moedas pode gerar (e realmente gerou) uma supervalorização vazia pelo ativo, como são conhecidas as bolhas especulativas. O primeiro e mais emblemático caso ocorreu no século XVII com tulipas, sim, flores.

O caso mais grave que se tem conhecimento foi de alguém que trocou quase 5 hectares de terras por uma única flor. Em Fevereiro de 1637, os comerciantes de tulipas não conseguiam inflacionar mais os preços de seus bulbos e então começaram a vendê-los. A bolsa de valores estourou. Consequentemente, milhares de holandeses, incluindo executivos e membros da alta sociedade, ficaram arruinados. Muitos casos de formas mais sofisticadas de bolhas especulativas ocorrem e ocorrerão de formas mais sofisticadas e sutis.

Ideal para o legal e o ilegal

E é justamente por suas características de anonimato que o BitCoin tem sido usados para atividades consideradas ilícitas ou para sustentar grupos de resistência/protesto, grupos que lutam contra governos ou que defendem certos direitos. Um exemplo disto é o Wikileaks.

O Wikileaks, para quem não conhece, é um grupo de jornalistas, cujo porta voz é Julian Assange. A finalidade deste grupo é liberar documentos confidenciais de governos e instituições. Estes documentos muitas vezes são obtidos de forma não legal e suas atividades muitas vezes são consideradas controversas. Isto gerou descontentamentos em governos, especialmente o norte-americano. O Wikileaks era mantido por meio de doações de todo mundo via PayPal e cartões de crédito. O grupo afirma que, apos a liberação de documentos que desagradaram alguns governos os meios de pagamento que garantiam sua sobrevivência foram “cortados”. A alternativa encontrada pelo grupo foi a arrecadação de fundos por BitCoins, já que o sistema é independente do controle governamental.

Outros casos são negociações de armas, drogas e afins feitas principalmente na Deep Web.

Se vemos, por um lado, a segurança e o anonimato como vantagens para as pessoas que apenas querem viver de modo normal e sem burlar leis, por outro a moeda da livre vazão a outros tipos de atividades menos nobres.

É neste ponto que certas vozes se levantam contra a moeda. Porém devemos lembrar que o dinheiro em especie também é muito complicado de se rastrear e ele é utilizado, hoje, para as mesmas atividades descritas acima. Que falem as cuecas que viajam recheadas por ai!

Mas o BitCoin vai sobreviver?

A moeda tem poucos anos de vida e alguns analistas acreditam que a recente super valorização dela que ocorreu entre 2012 e 2013 são indicativos de que pode ser uma bolha, como a das empresas Ponto Com na virada do século, porém, assim como estas que se estabilizaram e hoje temos um mercado bem sólido, podemos imaginar que no futuro quem sabe o BitCoin também pode se estabilizar como uma moeda “real”.

Não podemos dizer com certeza o que acontecerá mas não é por esta incerteza que devemos deixar de conhecer um projeto tão interessante como este.

Conclusão

O BitCoin vem ganhando os holofotes da mídia atualmente, especialmente com a crise européia. A idéia por traz é interessantíssima pois, aos olhos de um idealista, ela nos liberta das “garras” do controle institucional além de dar maior liberdade e privacidade às transações comerciais.

Conhecê-la e mesmo utiliza-la não lhe custará mais do que alguns cliques e um pouco de conhecimento que não é difícil de encontrar na Web.

Só o tempo dirá se o BitCoin será ou não uma nova bolha da Internet porém uma coisa podemos ter certeza; esta não será a última tentativa de garantir liberdade e privacidade para as pessoas.

Referência(s)

  • http://bitcoin.org/en/
  • http://bitcoin.org/bitcoin.pdf
  • http://blog.priceonomics.com/post/47135650437/are-bitcoins-the-future
  • http://olhardigital.uol.com.br/negocios/digital_news/noticias/bitcoin-chega-aos-us-200-e-mostra-sinais-de-bolha
  • http://www.cedeplar.ufmg.br/pesquisas/td/TD%20435.pdf
  • http://pt.wikipedia.org/wiki/Padr%C3%A3o-ouro
  • http://gizmodo.uol.com.br/perfuradoras-digitais-as-maquinas-monstruosas-que-mineram-bitcoins/
  • http://www.atrattore.com/blog/bolsa-de-valores/tulipas-e-a-bolsa-de-flores-de-holambra/
  • Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet / Julian Assange...[et al.]; tradução Cristina Yamagami. - São Paulo : Ed. Boitempo, 2013

Autores

Daniel Pereira

Formado em Física / Astrofísica pela Universidade de São Paulo. Fez cursos nas faculdades de Filosofia, Geologia e Matemática na Universidade de São Paulo. Fez cursos na área de artes plásticas e história da arte no Centro Cultural São Paulo. Também frequentou o curso de Introdução a Psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae. Atua na área de tecnologia e web desenvolvendo soluções voltadas para várias áreas do conhecimento, incluindo pesquisa com redes sociais. Atualmente atua para um grande portal de notícias.

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Fernando Botti

Sócio-fundador da startup Integra Quants Technologies, que atua na área de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias na análise quantitativa de multimercados.

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