Epicurismo: Uma ética do prazer e da prudência modelo para a sociedade atual.

Um prazer sem medida pode gerar uma angústia terrível; mas um prazer prudente pode render um gozo esplêndido.

Uma ética do prazer e da prudência.

O epicurismo é umas das escolas do período helenístico, tendo como doutrina a busca pelo prazer como fim primeiro e último para se alcançar a felicidade e a paz de espírito. Considerado por muitos como uma ética ateísta, carrega traços ascéticos e estado de vida austero. Em uma Grécia antiga o epicurismo era vivido nos "jardins", lugar que era afastado da área urbana onde homens e mulheres buscavam uma filosofia prática e simples, explorando prazeres necessários e que não lhes trouxesse dores, mas satisfações.

O presente artigo busca apresentar uma das poucas obras de Epicuro a carta a Meneceu em que ele fala do valor da filosofia para se alcançar a plena felicidade, é como que o bom desempenho dessa ética dependesse com grande relevância da filosofia, ou seja da reflexão sábia da vida prática. Tendo em vista um mundo atual, em que muitos buscam um prazer sem verificar suas possíveis consequências, este artigo breve pode ajudar-nos em nossa vida prática no mundo contemporâneo.

É a partir desta filosofia que pode se compreender todas as demais coisas, desde a composição da alma, que o próprio Epicuro se utiliza da física para definição da mesma, a existência dos deuses, medo da morte e a prática do prazer com o auxílio das virtudes.

Segundo o filósofo do prazer, umas das coisas mais temidas pelos homens é o medo da morte e dos deuses. Na filosofia antiga que vai do séc. VI a.C. até a queda do Império Romano, os filósofos dessa época costumavam resolver problemas relacionados à natureza, eles tinham em mente a busca pela sabedoria pois a mesma lhe proporciona o alcance tão almejado da felicidade. Para eles os deuses eram os seres dotados de sabedoria, vemos então uma religiosidade politeísta.

Na filosofia epicurista há uma peculiaridade que fora desenvolvida pelo próprio Epicuro, no que diz respeito aos deuses, ele costumava pensar que eles não interferiam na realidade humana, que eram como nós e que a raça humana não sofre nenhuma interferência dessas entidades, sem falar na materialidade deles, o filósofo afirmava que assim como nós somos formados de átomos, também os deuses apresentam esse mesmo fator. O epicurismo é considerado por muitos como uma filosofia ateísta pois expressa corruptibilidade da alma humana como também dos deuses. Do ponto de vista filosófico devemos, pois, vermos quais os valores de verdade a este respeito.

Com um olhar histórico a maioria dos filósofos clássicos acreditavam que este mundo é eterno que nunca terá fim, isso não implica dizer que por esta premissa chegaremos à conclusão de eles serem ateus. Na filosofia cristã com agostinho de hipona, filósofo e doutor da igreja católica, ele vai tratar do problema do tempo, nesta perspectiva ele enfatiza, assim como os demais filósofos cristãos, que este mundo teve início a partir da criação de um ser superior que criou tudo do nada, o tempo também é criatura no mundo das demais criaturas, dentro deste pensamento a alma é eterna mas o corpo é composto de átomos.

Este pensamento cristão tem grandes influências do platonismo, pois o próprio Platão na República1 fala que o corpo, envelhece e consequentemente tem fim, mas que a alma é imutável, logo ela não tem fim, é eterna. No epicurismo a alma possui átomos e, portanto, tem fim, isso se dá quando o corpo ao morrer leva junto a alma que está ligada a ele próprio. Isso implica dizer que Epicuro não nega a existência dos deuses, mas o mesmo não concebe a ideia de alma ser eterna e de os deuses interferirem na vida dos humanos. Ao pensarmos ética automaticamente nossa mente se volta a nomes como Platão e Aristóteles. Não podemos negar a grande parcela dada por eles a sociedade que nós conhecemos hoje, muitos conceitos devem-se a eles, pois foram mais amplos e por isso está ética platônica e aristotélica tem grande relevância no campo ético, não significa dizer que as demais não contribuam para as normas da vida humana e social. Ao tratar da morte o filósofo afirma:

"acostuma-te com a ideia de que a morte para nós é nada, visto que todo bem e todos mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações."

Epicuro, carta a Meneceu

É a partir desta citação que se percebe a presença da physis nesta ética do filósofo dos jardins, neste próximo capítulo iremos explanar um pouco desta teoria dentro da perspectiva epicurista.

Neste conceito compreende-se com mais totalidade a ética do prazer e da prudência. A arché sendo o princípio gerador de algo, se constitui de átomos e vazios, esta ideia mais a frente é refutada, mas não se pode negar que o filósofo é aquele que fundamenta sua ideia no princípio das coisas. Silva (2003) enfatiza que Epicuro apresenta a physis como natureza da coisa estudada. Partindo disto a physis tem como característica a transmissão de informações do corpo para a alma através de sensações.

Neste sentido compreende-se que o filósofo da prudência se apropria de compreender a natureza das coisas, alegando que tudo não vem do nada, mas que existe a origem de todas as coisas. Assim a filosofia epicurista vai ganhando força, pois fundamenta sua crença de que a alma é formada de átomos, justificando de qual maneira isso acontece. Epicuro de alguma maneira tenta criar algo próprio na sua ética de vida. Vemos alguns aspectos de grande relevância que abordam com propriedade todo o discorrer do epicurismo como doutrina de vida.

O filósofo do prazer escreveu segundo Diógenes Laércio2, mais de 300 obras, mas tudo o que se sabe dele e de sua filosofia deve-se ao próprio Diógenes. É importante ressaltar que fora a carta a meneceu existem mais duas cartas em que o filósofo do jardim também expõe autenticamente sua moral. Voltando o nosso olhar para a carta da felicidade a meneceu, de alguma maneira Epicuro deseja expor com sinceridade aquilo no qual ele acredita quando ele diz:

"Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um tolo, não só pelo que a vida tem de agradável para ambos, mas também porque se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e em honestamente morrer."

Este comentário expõe com clareza o valor que dá a vida, não é lícito aquele que vive não desejar ter nascido, nada justifica para o homem que aproveita cada minuto de sua existência que um seguidor seu seja acabrunhado de desespero, para que se desesperar se o futuro não pertence totalmente ao poder de cada humano, comer uma boa comida, sentir o seu gosto, conservar boas amizades era um dos padrões de vida que encontrava aqueles que entravam nos jardins. Em uma sociedade não diferente da que vivemos hoje, preocupada com o dinheiro, com poder aquisitivo etc. Todas estas coisas são nada diante da vida epicurista, pois é uma vida ascética, simples e acima de tudo feliz.

O atomismo3 é evidente dentro desta perspectiva, porém, mesmo acreditando na alma mortal, ele afirmava que, ao se dissolver junto com o corpo, ganhava possibilidade de formar outros corpos. Compreende-se que de certa forma há partes nestes átomos que não se dissolvem totalmente. Aquele que quer viver bem, alcançara a Ataraxia e a Eudaimonia precisa se integrar a uma vida desapegada, pois segundo ele quando alguém goza dos prazeres em excesso, este sofrerá dores, pressupõe que a ausência de dor se configura com os prazeres naturais e necessários na vida de cada indivíduo, mas para isso deve haver uma medida.

Sendo assim nesta mesma carta há uma exposição de alguns desejos que são naturais dos seres humanos, e outros que apenas estão como meio de trazer dor e descontentamento a criatura. Dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo. Afastar-se da dor é condição para viver feliz, se isto não persistir a dor é o medo consequentemente irão desnortear aquele que busca ser feliz pelo prazer. Nesta citação ele expõe acerca dos desejos naturais que são necessários para nossa subsistência e outros que são apenas naturais, mas sem finalidade alguma. Todos estes são importantes para o bem-estar e a paz de espírito. Adiante o filósofo irá determinar que o prazer é o bem primeiro e último para uma vida de felicidade, e inato do ser humano. Nesta etapa a filosofia helenística propriamente no âmbito epicurista, traz a teoria que o prazer é o início e fim da vida feliz. O filósofo afirma que o prazer e inato do ser humano, é o início e fim de uma vida.

A teoria freudiana relacione as etapas psicossexuais4 da criança, no início do desenvolvimento de seu comportamento. Freud enfatiza que a sexualidade não se desenvolve na puberdade, mas no início do desenvolvimento de cada indivíduo, nesta perspectiva é importante para Freud que compreendamos a sexualidade não apenas como fator único advindos dos órgãos genitais, mas de todas as partes do corpo. Epicuro há tantos séculos atrás já tratava essa ideia de prazer como parte do ser humano. No início desta teoria contemporânea, podemos destacar alguns fatores que nos fazem compreender com eficácia essa ideia. Segundo a teoria a primeira parte que a criança se utiliza para satisfazer seu prazer é a boca, por isso todo objeto manuseado pela mesma, é levado a essa região. Ele ainda cita tantas outras fases, como: anal, fálico, latente e genital, todas essas zonas são consideradas por ele como erógenas, ou seja, onde se concentra os prazeres desses indivíduos. Ao fazermos esses comparativos buscamos um olhar de compreensão acerca do que o filósofo do jardim deseja que seus adeptos entendam, o prazer não é algo que maltrata o ser humano, ao contrário o leva a uma satisfação que nenhum outro lhe proporciona, tanto é que, a própria psicologia trata deste fator como algo que já nasce com cada pessoa.

O verdadeiro epicurista é aquele que vive o prazer para ser feliz, mas é importante vivê-lo sem dores e consequências, é nesta finalidade que Epicuro quer chegar, ele indica a filosofia como medida para vivência dos prazeres, ela indica o momento a medida correta, pois ela é a própria sabedoria. A virtude é a marca do sábio, não há condição de se alcançar a ataraxia sem ser virtuoso.

A definição do sábio da ética do prazer e da prudência é aquele que é virtuoso, desta forma é que Epicuro vai esmiuçando o homem sábio e o definindo, estes aspectos vão sendo enfatizados por ele ao dizer que: não há homem mais feliz que ele, que não se importa com a morte, pois sabe que quando ela existe, ele não existe, e quando ele existe, ela não, os deuses estão em outro plano não interferem na vida material dos humanos e pôr fim a meditação o leva a compreensão desses fatores, pois o sábio enxerga além das coisas comuns aos outros. Para se chegar à virtude tão desejada é tarefa árdua, mas não é impossível, aquele que distingue os prazeres que lhes são necessários, sem sombra de dúvidas está sendo auxiliado pela prudência e a temperança, ambas fazem com que a ética epicuriana aconteça sem errar o caminho proposto. A prudência é maior que a filosofia, pois não há filosofia sem o alcance das virtudes, o verdadeiro filósofo para Epicuro é aquele que alcança as virtudes. Esta citação nos atenta a compreendermos que não há felicidade sem prudência, e que não há prudência que não nos resulte em felicidade plena e tranquila, sendo assim, a prudência é exame de todas as coisas e a temperança é medida delas.

Ele não foi o único para dentre a maioria que exalta as virtudes como caminho para a Eudaimonia, Platão, Aristóteles, Sêneca, Santo Agostinho, além dos inúmeros filósofos que destacam as virtudes como resultado da filosofia e caminho para ser feliz. Não há dúvidas que a filosofia helenística foi coberta de simplicidade e ascetismo, resultando uma opção para os gregos da época que viviam uma crise política, democrática e filosófica, em resposta a toda essa defasagem o epicurismo assim como o estoicismo e tantas outras escolas da época davam uma resposta e um caminho para seus Concidadãos. Caminho que os afastam da perspectiva de se alcançar felicidade, justiça e paz de espírito, em uma república injusta e infeliz, mas um convite a se afastarem da ganância e prazeres que lhes traziam consequências irreversíveis.

Atualmente estamos em uma crise político-social mundial, temos a grande fantasia de nos acharmos superiores a outros tempos, os que nos diferenciam desses outros tempos não é a tecnologia nem tampouco os desafios, mas de estarmos em um tempo diferente, com desafios semelhantes e até superiores aos antigos. Epicurismo, estoicismo etc. se configuram na atualidade da mesma forma que antigamente, cabe a nós animais políticos sairmos da ganância e de prazeres que nos levam há uma infelicidade cotidiana, buscar caminhos nestas filosofias, reinventando as nossas normas e sendo seres mais éticos e, autênticos.

1 - República é um diálogo socrático escrito por Platão, filósofo grego, no século IV a.C.. ... Como consequência dessa harmonia, nasce a saúde na alma e na pólis, a qual se reflete também na justiça, questão inicial posta no livro I do diálogo.

2 - Diógenes Laércio (Dioguénes Laértios; 200 - 250), historiador e biógrafo dos antigos filósofos gregos. A sua maior obra é Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, composta por dez livros, que contêm relevantes fontes de informações sobre o desenvolvimento da filosofia grega

3 - Doutrina elaborada pelos pensadores gregos Leucipo (sV a.C.) e Demócrito (460 a.C.-370 a.C.) segundo a qual toda a matéria é formada por átomos, partículas minúsculas, eternas e indivisíveis que, unindo-se e separando-se no espaço através de forças mecânicas, determinam o nascimento e a desagregação de todos os seres.

4 - A teoria psicanalítica foi desenvolvida pelo neurologista austríaco Sigmund Freud (1856-1939) e está intimamente relacionada a sua prática psicoterapêutica. É uma teoria que procura descrever a etiologia dos transtornos mentais, o desenvolvimento do homem e de sua personalidade, além de explicar a motivação humana.



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