Machado de Assis - O Alienista

O Alienista, obra de Machado de Assis
O Alienista, obra de Machado de Assis

Dizer que “O Alienista”, de Machado de Assis, escrito em 1882, traz à tona apenas a questão do que é e do que não é loucura parece muito pouco. Que tal propor um ponto de vista diferente, ligando-o a todos nós e a história humana, dos tempos mais remotos até os dias atuais?




"A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente."

Um eminente médico chega a Itaguaí, dizem as crônicas, "filho da nobreza da terra" e vindo das melhores universidades da Europa. Seu nome é Simão Bacamarte e sua especialidade as mazelas da mente humana. A cidade fica em alvoroço tal o orgulho da presença de tão grande figura, mas logo o alvoroço será por outros motivos. Por amor à ciência Dr. Simão Bacamarte, vulgo Alienista, inicia uma revolucionária pesquisa sobre a mente humana e suas "ilhas de loucura".

Versão de O Alienista nos quadrinhos
Versão de "O Alienista" nos quadrinhos de Gabriel Bá e Fábio Moon

Inaugura a chamada Casa Verde, instituição dedicada a recolher indivíduos ditos “perturbados da cabeça”, a partir daí a população da cidade passa a ser utilizada como cobaia dos experimentos do médico. Logo Itaguaí vê-se a mercê de algo que nunca imaginara. As exceções viram regra e os métodos do doutor varrem a cidade de seus habitantes, que passam a ser hóspedes do manicômio.

"Não se sabia já quem estava são, nem quem estava doido"

Revoluções, intrigas políticas, perseguições; a pequena cidade é palco de grandes agitações durante este breve período em que Dr. Bacamarte reina em Itaguaí, não como um cidadão ou benfeitor, mas como uma verdadeira entidade vigilante.

Um ponto de vista diferente

Ao ler "O Alienista" meus sentimentos foram múltiplos. Com relação ao doutor me veio sentimentos de que o tal mais parecia aquela espécie de criaturinha chata, impertinente, que está ali, sempre, "futucando", observando, não nos deixando em paz. Seus modos polidos, sua devoção à ciência, sua implacável vontade de colocar à prova seus teoremas médicos irritaram-me profundamente.

Muitas análises já foram feitas sobre o teor do livro e pelo que percebi elas pareceram, no final, um pouco comuns. Ou abordam o "estilo" da narrativa (é conto, não é conto, é romance, não é romance) ou ligam-na de forma muito óbvia com as mazelas dos tratamentos psiquiátricos aplicados em tempos passados ou mesmo, em alguns casos, em nossos tempos.

Realmente no início da leitura, de maneira automática, fui acometido nesta direção também mas, depois de pensar um pouco mais, percebi outra vertente nas idéias de Machado de Assis, idéias que talvez tenham nascido deste incômodo que descrevi acima.

O Alienista, no final das contas, parece-me o que poderia chamar de a "personificação do preconceito".

É sabido que os seres humanos adoram classificar coisas: um morango faz parte do conjunto das frutas, uma vaca faz parte do conjunto dos animais, o número "um" faz parte do conjunto dos números racionais inteiros positivos, uma pessoa que não se comporta segundo o padrão social vigente pertence ao conjunto dos loucos e assim vamos.

Apesar deste mecanismo mental de classificação das coisas em grupos ser uma excelente estratégia evolutiva para nós, que nos fez sobreviver durante estes milhões de anos desde a idade da pedra, permitindo-nos classificar rapidamente que um leão ou tigre pertencem ao conjunto dos animais que podem nos almoçar, este mesmo mecanismo de classificação também pode nos trazer muitos problemas, especialmente sociais, que é o que chamamos comumente de "pré-conceito" ou preconceito.

O preconceito não é nada mais do que classificar e colocar as pessoas (e não só pessoas) em "caixas" baseado em conceitos pré estabelecidos, sem nenhum ou com muito pouco uso da inteligência ou racionalidade.

Simão Bacamarte era exímio nesta arte, procurando classificar as pessoas dentro de parâmetros pré estabelecidos de loucura ou normalidade, inventando novos termos ou utilizando os já existentes, a fim de sempre encaixá-las em algo que fosse de seu interesse "científico".

"Mania Suntuária", "Demência dos Touros" e "Amor das Pedras", seja lá o que forem estes distúrbios, foram algumas das novas classificações criadas pelo eminente doutor.

Sua meta era criar uma nova ciência ao conseguir identificar e classificar a loucura e a normalidade do mundo, uma tarefa digna de uma mente loucamente megalomaníaca. Seu desvario em classificar tomou ares absurdamente descontrolados quando resolveu que as teorias que tratavam da "loucura" estavam todas erradas.

"[...] do fato estatístico, resultara para ele [Dr. Bacamarte] a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto, que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto [...] que à vista disto declarava à Câmara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde e agasalhar nela as pessoas que se achassem nas condições agora expostas"

Aqui podemos notar a extrema ironia com os valores da sociedade, valores estes que sempre estiveram em xeque, principalmente nos tempos atuais, onde a esperteza, abuso de poder e corrupção em todas as esferas parecem mais ser a regra e não a exceção.

Você, leitor, alguma vez, ao fazer algum gesto de valor para o próximo já não foi taxado de "maluco"? Talvez quando você falou ao atendente que o troco veio a mais ou devolveu uma carteira perdida? Eu já fui.

Assim como o Alienista nosso preconceito também pode agir como uma pessoa louca, louca para rotular tudo que seja diferente de si próprio.

Conforme lia um incômodo passou a tomar conta de mim. O modo como agia o Alienista me deixou muito desconfortável. Depois percebi que era o mesmo mecanismo do preconceito, algo que você não sabe bem, mas esta lá, dentro de você.

A ciência é tratada como o pressuposto e desculpa para as barbaridades cometidas na cidade pelo doutor, o que chamamos comumente de "bode expiatório". Devemos lembrar que a "ciência" já foi (e ainda é) usada como pretexto para a discriminação, vide as teorias de eugenia que se proliferaram no começo do século com destaque especial para a Alemanha nazista, onde tais idéias validavam a castração de homossexuais, o impedimento de casamento entre alemães não judeus e judeus, assassinatos e extermínio em massa em campos de concentração. Estas idéias não foram somente ressonantes na Alemanha, mas também nos Estados Unidos e até no Brasil onde foram estabelecidos grupos em defesa da eugenia.

Neste contexto podemos observar que os pretextos para se classificar, separar e discriminar podem ser amplos. Hoje em dia, mesmo apesar do politicamente correto, podemos ouvir em conversas com amigos e conhecidos termos como "nativos" em referência a cor da pele, "franceses" ou "bahianos" de forma pejorativa em referência aos nascidos no norte e nordeste do país e outros adjetivos repugnantes, como se todas as pessoas que nascem em um país, independente de cor, situação financeira ou credo, não pertencessem à nossa pátria, como se existisse uma "raça pura" de brasileiros que idealmente seriam brancos caucasianos de origem européia. Estas citações pejorativas são a prova de que o conceito de eugenia sobrevive em nossos tempos, senão na grande imprensa pois "pega mal", nos calabouços da "sociedade respeitável".

Hospícios como prisões disfarçadas

Outra vertente, que poderia dizer mais "óbvia", diz respeito aos hospícios como forma de prisão para perseguidos politicos e pessoas com idéias ou comportamentos indesejados.

Este tipo de abordagem foi e é muito utilizado em nossa história por ditadores, governos autoritários, fascistas e etc. como arma de contenção, controle ou vingança. No livro, em certos momentos, fica claro que pessoas com desavenças por parte do Alienista eram recolhidas à Casa Verde como foram os casos de Mateus Albardeiro, que possuia a mais bela casa de Itaguaí e rivalizava até com a Casa Verde, Martim Brito que em um banquete dedicado à esposa do Alienista se exaltou demais em seus elogios, provocando o ciumes do doutor ou Gil Bernardes, rapaz gentil com todos e que rivalizava em consideração na cidade com o próprio Alienista.

Exemplos da vida real de fatos desta natureza podem ser vistos em filmes como "Bicho de Sete Cabeças", inspirado no livro "Canto dos Malditos" de Austregésilo Carrano ou no Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, considerado o local onde ocorreu o holocausto brasileiro.

Nesta instituição eram "internados" epiléticos, mendigos, alcóolatras, homossexuais, prostitutas, meninas grávidas violentadas ou que perderam a virgindade antes do casamento.

Contabiliza-se 60 mil mortes neste hospício, sendo que apenas 30% possuía diagnóstico de doença mental.

Hospital Colônia de Barbacena. Crédito: Geração Editorial/divulgação.

Uma história de tal forma repugnante que rivaliza com as piores barbáries já vistas em tempos modernos.

É muito mais fácil para a sociedade, ao invés de ter de conviver com a diferença, trancafiá-la em algum lugar distante e isolado. As pessoas não querem este tipo de incômodo, de ter de discutir ou repensar atitudes, de aceitar mudanças ou mesmo notar o que existe de estranho em si mesmo. É mais fácil projetar tais mágoas em quem é de fora, nos outros.

Conclusão

São nestes dois contextos que acredito ser "O Alienista", obra ficcional de Machado de Assis, possuidor de uma imensa importância, importância de nos deixar alerta ao fato de que para atingir certos fins pode-se usar de inúmeros artificios, muitos deles recheados de boas intenções.

Mas apesar de tudo vejo uma espécie de redenção da personagem de Machado. Acredito que o destino final do Alienista retrata uma revelação, uma auto-análise, uma crítica de como as coisas são interpretadas, de como podemos olhar uma mesma coisa e dar-lhe inúmeros significados, não necessariamente estando qualquer um destes corretos.

A mim o desfecho do livro é o retorno ao estado fundamental no qual nossos preconceitos, em pleno século XXI, deveriam estar. Pena que as pessoas que sofrem deste agudo mal prefiram viver em seus manicômios internos.



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