Ser mulher, mãe e profissional - questões atuais

Será possível conciliar carreira, maternidade e realização pessoal? Acredito que esta pode ser uma questão minha e de muitas futuras ou atuais mamães que se vêem diante da necessidade de conciliar maternidade e trabalho.

A notícia de que estava grávida me deixou muito feliz e hoje, a uma semana da data prevista para o parto, observo que a gestação ensinou-me muitas coisas, entre elas, sobre intuição, sensibilidade, jogo de cintura e complacência comigo mesma e com os outros para lidar com alterações hormonais e de humor, relacionamento com o marido, com a família, etc. A gestação também me levou a cultivar hábitos mais saudáveis em relação à minha saúde física e emocional, como cuidar melhor da alimentação, das emoções, cuidar ou até evitar situações conturbadas que poderia vivenciar ou estar exposta. Só por isto sou grata a este bebê, uma menininha que, ainda no útero, vem me trazendo aprendizado e, com certeza, continuará trazendo ao longo de nossas vidas - e quero estar aberta para crescer, acompanhar e contribuir com a evolução dela junto a nós, assim como ela já contribui conosco trazendo-nos esta oportunidade de aprender.

Neste momento de eminente mudança em minha vida, uma questão torna-se agora ainda mais evidente: será possível conciliar carreira, maternidade e realização pessoal? Acredito que esta pode ser uma questão minha e de muitas futuras ou atuais mamães que se vêem diante da necessidade de conciliar maternidade e trabalho por quaisquer que sejam as motivações, financeiras ou de realização pessoais, ou ambas, ou outras...

Durante este tempo de preparação tive a oportunidade de conhecer o trabalho de Mallika Chopra, que é filha do médico indiano Deepak Chopra, mãe de duas filhas e sócia da Chopra Media, empresa que desenvolve programação televisiva, roteiros de filmes e outros produtos para mídia nos Estados Unidos. Ela nos dá uma contribuição importante com seu livro "100 promessas para meu bebê" (Chopra, 2005) ao relatar que muitas mulheres passaram anos estudando e trabalhando para alcançar sucesso na carreira profissional e depois abandonaram o trabalho para ficarem em casa com seus bebês. A autora observa que isto, para muitas, não foi um sacrifício e sim um tempo precioso de suas vidas que não volta mais, algo que desejaram fazer, mas discute que mesmo assim foi muito difícil para a maioria, pois representou abrir mão da troca de idéias, do trabalho intelectual e da interação social do ambiente de trabalho. Afirma que muitas mulheres, de fato, podem ter ficado infelizes com isto.

Por outro lado, a autora observa que outras jamais conseguiriam deixar seus trabalhos, ou não se permitiriam abandoná-los e logo depois da licença-maternidade voltaram a trabalhar, mesmo com sentimentos de culpa e incerteza se esta seria a escolha certa. No relato de sua experiência, Chopra (2005) afirma que depois de ter duas filhas, ainda luta para encontrar equilíbrio entre os projetos profissionais e o desejo de dedicar tempo o bastante a elas. A autora nos conta que, frequentemente, avalia suas tarefas e tenta se perdoar por conquistar menos profissionalmente para dedicar mais tempo a seus bebês. Ao mesmo tempo, percebe que será uma mãe melhor se estiver feliz, realizada e confiante, e afirma "me sinto assim quando percebo que sou boa mãe e uma profissional na medida do possível". Para ela, "maternidade é amar, cuidar, ouvir e acolher e não um monte de tarefas e listas de coisas a fazer". "É alimentá-las em todos os sentidos, observá-las desabrochando, orientá-las, valorizando cada instante precioso que estão ao nosso lado, é rir com elas, partilhar suas descobertas", e isto é possível, segundo ela, "integrando-se à alegria de cada momento, sentindo-se feliz com a pessoa que você é para que elas também possam crescer com orgulho, senso de realização e segurança" (Chopra, 2005).

Nestas falas, observamos que a autora propõe um equilíbrio em sua vida em relação a ser boa mãe e boa profissional, o que não é muito fácil, mas como percebemos, é uma busca constante a ser desenvolvida. Isto porque, como afirmam Betty Carter & Mônica McGoldrick (1989) as mulheres que desejam romper as barreiras dos papéis domésticos são forçadas a se conformarem com um modelo masculino, que se atém à sua competência e espera que se ajuste ao modelo corporativo, apoiando o empenho de uma mulher em ser parecida com um homem. E, desta forma, enfrentam uma tarefa difícil, sofrendo a influência invisível da cultura, centrada no masculino, que desencoraja o desenvolvimento feminino natural - aquele capaz de cuidar, defender a não violência, sentir compaixão, etc.

Tarefa difícil, mas não impossível, acredito. Em minhas análises pessoais percebi que dispensamos alguns anos nos formando, nos "preparando" para o "mercado de trabalho" e deixá-lo não precisa ser uma condição. Entretanto, quanto tempo temos ainda para nos realizarmos profissionalmente? Quantos anos os bebês precisarão de nós e o que isto representa no tempo total que temos para exercer nossas atividades profissionais? O que representa uma redução no ritmo das atividades por um tempo se tenho a vida toda pela frente para atuar profissionalmente, crescer financeiramente e/ou continuar me formando?

Convido a(o) leitora (o) a refletir sobre estas questões. E principalmente para aquelas que sentem a maternidade como uma missão, como uma contribuição para um mundo melhor, pois concordo com Malikka ao afirmar que "como pais, possuímos a capacidade de criar novos cidadãos que têm o poder de mudar o planeta" e "se nos comprometermos a ensinar amor, respeito, integridade e compaixão estaremos cumprindo nosso dever de criar um mundo mais seguro e feliz para eles" (Chopra, 2005). Sabemos que são muitas as condições em que se encontram os pais hoje em dia, com muitos desafios, como aponta Chopra - muitos estão sozinhos, pressionados pelo trabalho ou pelo cotidiano, mais velhos ou mais jovens que o padrão normal, mas "todos estamos envolvidos pelo papel que exercermos em moldar as mentes inocentes do futuro" (Chopra, 2005).

Deepak Chopra, como médico (e pai desta autora), coloca que "pensamentos, intenções, e emoções de uma mulher grávida influenciam diretamente o desenvolvimento fisiológico de um feto e que esta influência continua a ser reforçada quando a criança nasce, desenvolve-se e amadurece". Para ele, "a personalidade do futuro adulto é influenciada e moldada pelas emoções e atitudes da mãe", e acrescenta que "as mais importantes tradições de sabedoria nos ensinaram que o mundo é uma extensão de nós mesmos". (Deepak Chopra, no prefácio de Mallika Chopra, 2005). Aqui ele concorda com Betty Carter & Mônica McGoldrick, que afirmam que a mulher, "ao reivindicar o direito inato ao feminino, impulsionará um renascimento cultural de si e de todos, ajudando a humanidade a evoluir e restaurar a harmonia e a paz" (1989). Deepak Chopra (2005) também reforça esta idéia ao concluir que "o mundo nunca mudou por ações de políticos ou cientistas" e sim "são as mães que possuem as chaves para curar nosso planeta ferido. Cada terrorista e cada santo já foi um dia bebê" e, por isto defende que "o mundo depende das escolhas feitas pelas mães".

Antes de ter a oportunidade de refletir sob estes pontos de vista, acreditei que uma forma de contribuir para um mundo melhor seria através de meu trabalho. Como psicoterapeuta, procuro constantemente entender o ser humano e como ajudar as pessoas a se perceberem, se conhecerem, se transformarem para sentirem-se melhor e mais felizes, fazendo com que o mundo se torne menos sofrido e mais feliz. Contudo, hoje vejo que a maternidade também é um meio para esta realização. Percebi que não é só com o trabalho formal que podemos construir um mundo melhor e conquistarmos nossa felicidade, pois vi na maternidade uma GRANDE oportunidade de desenvolver tudo isto, cultivando afetividade, semeando amor, sendo uma boa mãe, ou pelo menos a melhor que eu puder ser.

Portanto, neste momento, a minha escolha é colocar-me aberta e entregue a esta experiência que se inicia, tão marcante e importante na vida de uma mulher, ao ser mãe, em sintonia com o compromisso e responsabilidade com esta criança, e, assim, com o futuro e com a minha contribuição na construção de um mundo melhor.

"Ele te esconde com suas penas,

Sob suas asas encontras abrigo"

Salmo 91:4

Referência(s)

- Mulher - em busca da feminilidade perdida, Betty Carter & Mônica McGoldrick, 1989;
- 100 promessas para meu bebê, Mallika Chopra, Rio de Janeiro, Ed. Sextante, 2005.

Autor(a)

Adriana Scatone Bezerra

Adriana Scatone Bezerra é psicóloga - CRP 61768 / 06
Consultório na zona Oeste de São Paulo

Contato

Tel. (11) 3022-5674 - ascatone@gmail.com


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