A visão de saúde no decorrer da história

Este texto trata de algumas concepções de saúde, doença e cuidado no decorrer da história. Traz reflexões acerca dessas visões e da realidade encontrada no Centro de Testagem e Aconselhamento em Doenças Sexualmente Transmissíveis/HIV/AIDS de Guaianases, onde trabalho.

Os conceitos de saúde, doença e cuidado são historicamente construídos, por isso são complexos e dinâmicos, transformando-se de acordo com as concepções e estilos de vida das pessoas e da sociedade.

Existem diversos modelos, que aqui irei sintetizar e discutir a partir de textos e filme:

Modelo Mágico-religioso ou Xamanístico:

Origem: Antiguidade
Concepção de Doença: gerada por causas sobrenaturais. A pessoa ou a comunidade transgrediu uma lei divina.
Concepção de Saúde: “fazer as pazes” com as divindades.
O cuidado é liderado por Sacerdotes ou Xamãs, que têm proximidade com as divindades.

Este modelo não dá conta da cura de todas as doenças que se propõe, mas segundo Paulo Sabroza (2004) há algo de positivo: “(...) ao menos atendem necessidades essenciais de suporte psicológico e de interação comunitária, com um custo capaz de ser absorvido pelas pessoas e pela sociedade”(p.4).

É muito interessante notar que nos dias de hoje diversas pesquisas científicas relacionam uma possibilidade de cura mais promissora para as pessoas com fé. A espiritualidade é um aspecto importante na motivação, no controle da ansiedade, depressão e no processo de cura de algumas enfermidades.1

No meu cotidiano costumamos trabalhar com diversas religiões. No CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento) em DST/AIDS as práticas e recomendações de muitas religiões interferem na prevenção sexual das pessoas. Por exemplo: além da religião Católica não recomendar o uso do preservativo, há religiões afro-brasileiras que utilizam rituais de corte com sangue. Trabalhamos orientando tanto o uso de preservativos na prática sexual, como o uso individual de instrumentos de corte nas comunidades.

Medicina Holística:

Origem no Modelo Holístico da Antiguidade. A Medicina iniciou-se no Século V a. C.
Concepções Orientais de equilíbrio e desequilíbrio
Concepção de Doença: Desequilíbrio desses elementos internos e externos (astros, clima, insetos).
Concepção de Saúde: Equilíbrio entre os elementos.
Cuidado: ocorre através do ajuste dos elementos para que o equilíbrio seja restabelecido.

Há um serviço na região de Guaianases – o Centro de Práticas Naturais - que se embasa diretamente nos conceitos da Medicina Tradicional Chinesa e tem concepções holísticas do cuidado à saúde, com práticas naturais (meditações, acupuntura, exercícios e massagens) que buscam o reequilíbrio de todas as pessoas. É uma concepção muito importante, mas não dá conta de todos os aspectos envolvidos na saúde.

 

Modelo Empírico- Racional:

Origem: Egito (3.000 a.C.)
Hipócrates foi o grande responsável por esta visão que construiu teorias que fossem além do modelo sobrenatural da explicação dos eventos. Criou a teoria dos Humores Corporais que associava a saúde e a doença a quatro humores (sangue, fleugma, bílis amarela e bílis negra)2.
Concepção de Doença: desequilíbrio dos humores (Discrasia)
Concepção de Saúde: equilíbrio dos humores (Eucrasia)
Cuidado: explicação racional de desequilíbrio com ações para reestabelecer o equilíbrio dos humores.

Apesar de acharmos este modelo nos dias de hoje sem sentido, a contribuição de Hipócrates foi importante, pois ele queria causas concretas para saúde e doença, não se contentado com as explicações místicas de sua época. Parece com a origem da ciência por isso é considerado por muitos o pai da Medicina.

Modelo da Medicina Científica Ocidental (Biomédico):

Período: origem século XVI (Renascimento e Método de Descartes)
Concepção de Doença: é um desajuste na adaptação do organismo físico, como um defeito no corpo humano, visto como máquina.
Concepção de Saúde: funcionamento adequado do corpo.
Cuidado: centrado na figura de um mecânico, que conserta a máquina, através do estudo das pequenas partes que a compõem. A pessoa adoecida é um paciente, ou seja, é passivo no processo de cura e adoecimento.

Neste período também há a Teoria dos Miasmas, início da microbiologia.

Realizei algumas entrevistas sobre a visão das pessoas com relação a saúde, doença e cura e este modelo é muito difundido na atualidade. A expectativa da cura ainda é muito depositada nas mãos dos médicos, que se tornaram especialistas das partes do corpo, muitas vezes frustrando a expectativa do paciente que deseja ser ouvido, acolhido como um todo. Nota-se uma coexistência das concepções de saúde e doença nas pessoas, o que em alguns momentos pode gerar conflitos e frustrações na expectativa de cuidado do usuário do serviço de saúde.

O modelo médico-científico ainda é muito associado, nas entrevistas que realizei, com o cuidado sério em saúde, através de tecnologias e remédios. Realmente nos últimos anos houve um grande desenvolvimento de tecnologias médicas para diagnóstico e tratamento de doenças. A indústria farmacêutica realizou um investimento massivo em tecnologia e também na formação de profissionais de saúde, que já saem das Universidade com o olhar fragmentado (especialistas) e com a marca “certa” do remédio a ser utilizado. Além disto, muitas vezes, não aprenderam a olhar a saúde de uma maneira mais abrangente e a pessoa adoecida, para além da passividade trazida pelo adoecimento, esquecem que ela também é ativa, sujeito em seu processo saúde-doença. O aspecto coletivo e multiprofissional do cuidado é desvalorizado, já que o médico é a figura central e, geralmente, tem um olhar individual para os acontecimentos. As ações de prevenção e promoção de saúde são menos valorizadas que a assistência, em geral, hospitalar.

Como afirma Paulo Buss (2000) as condições de vida e saúde melhoraram graças a progressos sociais, políticos, econômicos, ambientais, avanços na saúde pública e na medicina. Mas apesar disso houve um grande investimentos na assistência médica curativa e individual mesmo que se identifique que medidas preventivas e de promoção de saúde e melhoria de condições de vida tenham sido razões principais.

Acredito que há grandes interesses econômicos, corporativismo (vide Ato Médico) para que haja o investimento e a insistência na valorização da medicina do modelo biomédico. Há um controle dos corpos dos indivíduos e medicalização das questões sociais, por exemplo, a Síndrome do Pânico está intimamente ligada à violência social, medica-se a pessoa e não se faz as críticas e mudanças sociais para a transformação da sociedade para resultar em paz.

O capitalismo, o fato de se ter poder econômico determina o futuro das pessoas, como no filme “Ilha das Flores”3, de 1989, dirigido por Jorge Furtado, que mostra com ironia o ser humano, sem dinheiro, ser tratado pior que animais (assista ao vídeo no final do artigo). As populações mais pobres e vulneráveis em geral moram bem longe dos centros das grandes cidades. Como é o caso de Guaianases, localizado no extremo leste da cidade de São Paulo.

Modelo Sistêmico:

Período: Década de 70.
Conceito Principal: há um ecossistema no processo saúde-doença de tal forma relacionados que a mudança de um elemento afeta todo o Sistema. Existem inúmeros fatores associados como, por exemplo, farores políticos, socioeconômicos, culturais , ambientais, etc.
Conceito de Doença: Desequilíbrio do sistema em busca de novo equilíbrio
Conceito de Saúde: Equilíbrio complexo e dinâmico do sistema

Ao contrário do modelo Biomédico que olha para as partes, o modelo Sistêmico olha a totalidade.
Desta forma, um serviço de saúde deve contemplar um conjunto de ações, identificando interações dos determinantes das doenças.

Esta concepção de saúde amplia o olhar e transforma as ações relacionadas com saúde, indo além do olhar para o corpo-máquina. Por exemplo, no CTA DST/AIDS de Guaianases trabalhamos preconceitos em relação a diversidade sexual, discutimos papéis sociais atribuídos a homens e mulheres (identidade de gênero) e comportamentos. Todos estes aspectos estão direta ou indiretamente ligados a ações de prevenção sexual e redução da transmissão de doenças sexuais.

Modelo da História Natural das Doenças (Modelo Processual dos fenômenos patológicos)

Origem: 1976 por Leavell e Clark
Conceito Principal: há uma regularidade do processo saúde-doença e desta forma podemos prevenir e controlar as doenças.
A saúde e doença são um processo.
O cuidado pode ter diferentes níveis de complexidade: promoção, prevenção, assistência, etc. Conhecendo a regularidade do processo, podemos agir antes do adoecimento e promover qualidade de vida.

No período Pré Patológico podem ser realizadas ações de prevenção, como as que realizo no CTA para diminuir o risco do usuário ser contaminado pelo HIV: distribuição de preservativos, aconselhamento sobre sexo seguro, etc. No período patológico também podemos realizar prevenção secundária e terciária, como no caso de uma pessoa com AIDS, há hábitos de vida que fortalecem o sistema imunológico da pessoa e a deixam mais saudáveis. Continuar a usar preservativo, além de proteger o parceiro ou parceira, também protege a pessoa portadora do vírus, pois evita que entre em contato com vírus do HIV mais resistentes.
Em 1948, a Organização Mundial de Saúde (OMS)4 redefiniu e ampliou o seu conceito de saúde, passando da visão biomédica para uma mais abrangente em que a saúde é: “ (...) estado de completo bem-estar físico, mental e social”.

Em 1990, no Brasil, as Leis 8.0805 e 8.1426 ampliaram ainda mais a concepção de saúde incluindo fatores como alimentação, moradia, saneamento, meio ambiente, trabalho, renda, educação, transporte, lazer, acesso a bens e serviços essenciais, etc. Considera que a saúde de uma população é a expressão social e econômica de um país.

Com todos estes avanços na visão de saúde e com a inclusão de tantos fatores, as pessoas da população passaram a ter um papel muito importante em seu próprio processo de saúde e nas comunidades: são sujeitos e atores na construção de sua saúde e não mais indivíduos pacientes/passivos de suas enfermidades com causas exclusivamente físicas ou sobrenaturais.

Estes novos conceitos trazem uma revolução da visão de toda a sociedade e desafia-nos em nossa prática como gestores de serviços de saúde. Agora a comunidade, tão excluída como no bairro de Guaianases, extremo leste da periferia de São Paulo, está incluída na construção da saúde de seu bairro através dos Conselhos Gestores dos serviços. No CTA temos um Conselho Gestor e estimulamos a participação da comunidade. Também trabalhamos com agentes de saúde na prevenção sexual. Pessoas da comunidade trabalham disseminando informações sobre saúde sexual entre seus pares e trazendo para o serviço demandas. Aproximamos-nos das pessoas mais vulneráveis fazendo trabalhos extra-muros, levando informações, oferta de exames e preservativos até as comunidades mais isoladas de nossa região.

Acredito que o meu papel enquanto gestora de um serviço de prevenção sexual é realizar um diálogo entre o serviço e a comunidade construindo e ofertando ações que tenham haver com as necessidades da população e levando informações e possibilidades de prevenção e promoção de saúde para todos.

É de grande importância do empoderamento dos usuários e da comunidade na compreensão que saúde e doença são um processo de trabalho em conjunto comunidades e profissionais de saúde. E eu como gestora tenho que facilitar esse processo e estimular a participação de todos. Afinal: o SUS é nosso!

Referência(s)

  • 1. Matéria disponível em: http://saude.abril.com.br/edicoes/0320/bem_estar/conteudo_533899.shtml Acesso em 24/01/2013.
  • 2. Informações disponíveis em: pt.wikipedia.org/wiki/Hipócrates Acesso em 24/01/2013
  • 3. Filme disponível em: http://www.portacurtas.com.br/coments.asp?Cod=647#
  • 4. http://www.who.int/about/definition/en/print.html Acesso em: 25/01/2013
  • 5. http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/lei8080.pdf Acesso em: 25/01/2013
  • 6. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8142.htm Acesso em: 25/01/2013
  • BUSS, Paulo. Promoção da saúde e qualidade de vida. Revista Ciência & Saúde Coletiva, v. 5, n. 1, p. 163-177, 2000.
  • GONDIM, Roberta (Org.) Qualificação de gestores do SUS./Organizado por Roberta Gondim, Victor Grabois e Walter Mendes – 2 ed. rev. ampl. - Rio de Janeiro, RJ: EAD/ENSP, 2011.
  • SABROZA, P. C. Concepções de saúde e doença. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, 2004.

Autor(a)

Salete Monteiro Amador

Psicóloga formada pela PUC/SP, Pós graduada em Saúde Coletiva pela FUNDAP. É Terapeuta e Supervisora de Terapia Comunitária. Editora do Site Ser Melhor e Assessora Técnica em Saúde Pública.

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