Considerações sobre o Desemprego

Um desempregado 'não exerce' seu ofício, mas ainda é uma pessoa, ele faz parte de um grupo social, é sujeito ativo, apesar de não estar empregado; está também se transformando como toda a espécie humana.

O alto nível de desemprego do Brasil causa grande preocupação, segundo dados atuais da Fundação SEADE/DIEESE (Sistema Estadual de Análise de Dados/Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) num grupo de 5 pessoas economicamente ativa, uma está desempregada. A problemática do desemprego se deve ao não crescimento da economia do país e a conseqüente não geração de empregos; surgindo um aumento da tensão social e política que torna ainda mais difícil o cenário para o mercado de trabalho.

Como num círculo vicioso, as incertezas sobre o comportamento da economia e aquelas geradas pela crise social podem ter efeitos ainda mais negativos sobre a taxa de emprego. O problema do desemprego é extremamente complexo, a começar pelas explicações para o surgimento de tal fenômeno.

Existem várias hipóteses que tentam explicar o desemprego. Mesmo sua definição é discutível: 'desemprego' (em francês: chômage) é palavra utilizada a partir do século XII e vem do latim popular 'caumare', que significa 'repousar durante os grandes calores', começou por significar o tempo das festas passadas sem trabalhar e substituiu durante toda Idade Média e a Revolução Industrial, a noção atual de dia de feriado regular para os trabalhadores. A única libertação vinha dos dias de desemprego, estar desempregado correspondia à situação de repouso para o trabalhador.

Uma das hipóteses que tentam explicar o desemprego é a do pensamento marxista que revela a existência de uma reserva de força de trabalho sem emprego como característica inerente à sociedade capitalista, criada e reproduzida diretamente pela própria acumulação de capital, a que Marx chamou de exército de reserva ou exército industrial de reserva. Porém, dependendo das proporções, o desemprego é sem duvida o espelho que melhor reflete as dificuldades econômicas e sociais de um país, suas relações com a insatisfação da população, e o aumento da criminalidade nas grandes cidades. Esta é sem dúvida uma contradição terrível para um sistema econômico porque o desemprego se torna um mal necessário para o capitalismo, segundo o pensamento de Marx.

Se o desemprego e o capitalismo são inseparáveis, os índices atuais de desemprego são alarmantes e afetam a toda a população, pois há por um lado os que não conseguem arrumar emprego e por outro aqueles que temem perder seus empregos. As conseqüências do desemprego para o indivíduo estão associadas a fatores como duração do desemprego, contexto sócio-econômico em que ocorre, a idade do desempregado, entre outros.

O indivíduo desempregado percebe a realidade que se alterou e inicia um processo de abandono das referências, dando início a existência de um ciclo que vai do choque, passando pela depressão e podendo conduzir ou não à adaptação. Assim, a pessoa desempregada vive um processo de perda e culpa.

Com o advento do Capitalismo surgiu uma valorização moral da condição de trabalhador. Atualmente, a atribuição moral da categoria de trabalhador assalariado permanece inalterada, ocasionando uma conseqüente desvalorização dos indivíduos que não se encontram nesta condição.

Um desempregado 'não exerce' seu ofício (profissão que escolheu para ser sua atividade remunerada), mas ainda é uma pessoa, ele faz parte de um grupo social, é sujeito ativo, apesar de não estar empregado; está também se transformando como toda a espécie humana.

O problema da dualidade emprego e desemprego está na instabilidade psicológica que surge da falta de recursos financeiros, sociais e psicológicos do indivíduo para enfrentar a condição de desemprego; além valorização moral do trabalhador, que ocasiona a desvalorização de quem não se encontra nesta condição.

É evidente que há uma transição nas relações de trabalho; o emprego formal está sumindo e dando lugar a outras formas de trabalho remunerado, porém o trabalhador permanece com o mesmo significado instituído de emprego. O emprego formal fornece uma estrutura temporal para a vida do trabalhador e um senso de propósito, fornece rotina e salário regulares; já outras formas de trabalho remunerado como o trabalho autônomo não fornecem necessariamente as mesmas estruturas.

Cabe a sociedade brasileira minimizar o sofrimento ocasionado pelo desemprego, e discutir novas formas de inserção social, principalmente da população menos favorecida, e excluída, de nosso país, pois eles sofrem mais com a crise do emprego e vivem constante situação de risco social; precisamos debater acerca da construção do novo mercado de trabalho e das novas formas de trabalho. Porém, não podemos esquecer o papel decisivo que os políticos têm para debater as problemáticas do mercado de trabalho e promover alternativas, sendo da maior importância fazer uma Reforma Social que vise a cidadania para todos, com educação, saúde e trabalho. Assim sendo, antes das eleições analise as propostas de seu candidato, e depois das eleições acompanhe o desenvolvimento dessas propostas, pois não basta apenas votar, é preciso participar!

Referência(s)

Texto resumido e extraído de: BRAGA, M.A.S. (1999) Desemprego: reflexão e discussão à partir de um depoimento. Trabalho de Conclusão de Curso não publicada, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Faculdade de Psicologia.

Autor(a)

Marcos Augusto da Silva Braga

Psicólogo CRP-06/58.148-6
Psicólogo (Faculdade de Psicologia da PUC/SP) especialização em Saúde e Trabalho pelo ICHC-FMUSP e em Psicologia Social das Organizações pelo Instituto Sedes Sapientiae

Contato

mbragapsicologo@icqmail.com

Veja Também

Receba nosso boletim por e-mail

Cadastre seu e-mail e receba nossos boletins e material exclusivo

Comentários relacionados a este artigo