Mãe e Profissional - Parte II

Minha filha poderia estar em horário integral em uma escola, mas quem a ensinaria a ter limites, ser uma pessoa boa para o mundo e para si mesma? Quem a ensinaria a se sentir amada e a amar?

Recebi recentemente uma proposta profissional interessante, animei-me, mas quando soube qual seria a jornada de trabalho pensei- “Isto é para quem não tem filho” – pois esta incluiu finais de semana e feriados. Opa, percebi em seguida, logo me indagariam por que não? Quantas mulheres lá são mães e quantas outras não desejam uma oportunidade como estas?

Há escola em período integral para minha filha (que vai completar 2 anos) e meu marido pode ficar com ela nos finais de semana e feriados.... mas e eu? Quando ficaria - na minha 1 folga durante a semana? Quando brincaríamos, passearíamos em família, estaríamos disponíveis para nos divertir juntas?

Ela vai ser bem cuidada, almoçar e jantar, vai aprender a ter independência para comer e para outras atividades, mas e nós compartilharíamos nossa refeição em que momento? Lembrei-me de que a criança aprende muito mais pelo o que vê do que pelo o que dizem a ela. Segundo Jung, (...) a educação pelo exemplo (...) ocorre espontaneamente e de modo inconsciente; (...) a forma mais antiga e talvez a mais eficaz de toda e qualquer educação. Está em concordância com este método o fato de a criança se identificar mais ou menos com seus pais (...) Porque a educação inconsciente pelo exemplo se fundamenta em uma das propriedades primitivas da psique, será este método sempre eficiente (Jung appud Revista Educação 2008). Então questionei-me se o tempo em que eu estaria presente seria suficientemente bom para que ela aprenda através do meu exemplo, dos valores de nossa família. Ela conheceria modelos de convivência na escola, mas quem a ensinaria a ter limites, ser uma pessoa boa para o mundo e para si mesma? Ela se apegaria afetivamente às professoras e cuidadoras, mas qual a verdadeira vivência afetiva se não for em família? Quem a ensinaria a se sentir amada e a amar?

Cury (2007) no livro em que analisa a personalidade de Maria, mãe de Jesus, conta a história de um jovem que enterrou seu pai sem conhecê-lo. Era filho único e, no velório de seu pai, surpreendeu-se com as pessoas que vinham consolá-lo e diziam que seu pai era um exemplo de coragem, simplicidade e humor cativante, que incentivava e dava conselhos e ajudava a todos, chegava até a contar seus sofrimentos e altos e baixos financeiros para consolar os que estavam sem esperança. O filho pensou que não estavam falando da mesma pessoa, pois conhecera um pai rico, socialmente respeitado e que em casa era fechado, austero, tenso. Supria as necessidades materiais mas nunca dialogou sobre seus sonhos, anseios e medos. Pouco relaxava, pouco brincavam, não se curtiam. Com isto, o autor reflete sobre o que dar aos filhos através da análise da personalidade de Maria, que não tinha recursos financeiros, mas dava ao menino Jesus, como presente à sua educação, seus exemplos de superação das adversidades, falando e refletindo com ele sobre suas incoerências e dificuldades, não só sobre acertos. Maria lutava para sobreviver e, assim, enriquecia a personalidade de seu filho transmitindo sua história de vida.

Biddulph (2007) afirma que a adoção compulsiva de berçários, creches e escolas para crianças pequenas é sintoma de que a infância mudou, com menos tempo disponível dos pais e, como conseqüência, menos senso de família e comunidade, pois “ganhar e gastar dinheiro tornaram-se mais importantes do que cuidar e se comunicar com pessoas ao nosso redor” e acrescenta que “o mundo é movido pela ganância e imediatismo”.

Este autor cita que no Reino Unido 60% das mães optaram por combinar o trabalho e a vida familiar, 20% estão centradas no lar e outras 20% priorizam o trabalho. Ele completa dizendo que nos países europeus com melhor apoio às famílias os pais jovens optaram pelo o que chamou de “grande tríade”: licença remunerada para os pais, jornada de trabalho flexível e garantia do emprego. Por isto, não colocam seus filhos recém nascidos ou pequenos em berçários, creches ou escolas maternais. Biddulph (2007) observa que a mudança vem ocorrendo em todo o mundo e isto proporciona a devolução da responsabilidade aos pais, que se tornam menos consumidores e mais cidadãos. Para ele, as pessoas querem cuidar de seus filhos. Ele acredita que no futuro as creches, berçários e escolas maternais existirão, porém utilizadas com equilíbrio.

Ainda Biddulph cita um estudo publicado pelo Dr. Norman (2003), que iniciou nos anos 50 e durou 35 anos, que revelou:
- 91 % das pessoas acompanhadas durante o estudo que não tiveram proximidade de suas mães desenvolveram doenças graves na meia idade como úlceras, doenças cardíacas, alcoolismo, hipertensão e asma crônica. Assim, o estudo aponta que os efeitos do amor na infância parecem ajudar a manter-se saudável ao longo da vida.

Por isto, convido para a reflexão, se no lugar de diagnósticos, como observamos entre nós, nas escolas e consultórios, tivermos pais mais presentes?

Conforme Biddulfh (2007):

“ as grandes decisões de sua vida situam-se entre dinheiro e amor“ ... e “ no momento em que o amor se tornar a força motora de sua vida, então tudo mudará. Você não vai se arrepender”.

Referência(s)

Cury, Augusto – Maria, a maior educadora da história, os dez princípios que Maria utilizou para educar o menino Jesus, São Paulo, Ed. Planeta, 2007.

Biddulph, Steve, Criando bebês felizes, Rio de Janeiro, Ed Prestígio, 2007.

Revista Educação - Especial Jung Pensa a Educação, Ed. Segmento, 2008, pág. 70.

Autor(a)

Adriana Scatone Bezerra

Adriana Scatone Bezerra é psicóloga - CRP 61768 / 06
Consultório na zona Oeste de São Paulo

Contato

Tel. (11) 3022-5674 - ascatone@gmail.com


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