O nosso adolescente nas comunidades populares.

Resumo do trabalho de Serrão e Baleeiro, no intuito de contribuir com aqueles que trabalham ou convivem com estes adolescentes. Quem é o adolescente de comunidades populares? Ele é diferente dos demais?



Não há que desesperar do homem.

Temos ainda - arca de surpresas - os meninos,

e é proibido antecipar a sorte.

Degustam bem aventuradamente um naco de melancia,

Acomodam-se numa caixa de biscoito, aderem ao carnaval.

Seus olhos profundos indagam: - que fazes por mim?

Não sabemos responder - os meninos continuam,

esperança de todos os dias, e promessa de humanidade.


Carlos Drummond de Andrade.



A adolescência é um período de transformações e intensas emoções. É uma fase caracterizada por uma crise de identidade que envolve o corpo, os valores existentes, expectativas quanto ao que devem ser, escolher e o lugar a ocupar na sociedade. Então, é um período de grande reorganização pessoal e social, na qual o adolescente deixa sua identidade infantil e busca uma nova definição de si mesmo. Muitas vezes isto ocorre com contestações, rebeldias, rupturas, inquietações, podendo passar por transgressões. Isto tudo reflete a grande revisão dos valores que os cercam e do mundo em que vivem.

Desta forma, realizam a passagem do mundo infantil para o mundo adulto, e o amor, a amizade, o trabalho, a escola e o projeto de vida tornam-se grandes questões tendo como ponto central a identidade: Quem sou eu? Como sou eu? Qual o meu valor? Quem me valoriza? O que quero? O que quero ser?

Este é o quadro comum dos adolescentes. Nas comunidades populares citadas por Serrão e Baleeiro (1998) também se observam estas características, ou seja, eles não diferem em essência em relação aos adolescentes de outra classe social. Contudo, o que difere para eles são as formas de ver o mundo, de reagir e de expressar os sentimentos, o que está relacionado com o contexto em que estão inseridos.

Assim, Serrão e Baleeiro (1998) relacionaram algumas das características particulares desta população, lembrando que não devem ser tomadas como definitivas e invariáveis:
  • Auto-estima fragilizada: Espantavam-se ao receber elogios ou reconhecimentos dirigidos a eles. Para fortalecer a auto-estima é necessário um reposicionamento na família, na comunidade, na escola e na sociedade, modificando o olhar para si próprio e readquirindo a dignidade perdida no processo histórico.

  • Auto-imagem contaminada por preconceitos: relativos à classe social, etnia, nível cultural, profissão e local de moradia, como se não pudessem transpor obstáculos vinculados a ser negro, pobre ou de periferia. Em ambientes estranhos, mentiam ou omitiam sua origem, indicando uma auto-imagem comprometida para lidar com os preconceitos sociais.

  • Medo de expressar-se: relacionava-se com o medo do ridículo e da exclusão, com desconfiança constante, como defesa, já que a sociedade não lhes oferece oportunidades.

  • Dificuldades em reconhecer em si atitudes de racismo: Por exemplo: colocando-se como vítimas do branco ou assumindo comportamentos racistas em relação ao mesmo e repetindo, sem se dar conta, brincadeiras preconceituosas e pejorativas em relação ao negro.

  • Presença da sensualidade: relação com o corpo colorida por uma sensualidade natural, não sendo sinônimo apenas de sexualidade e sim de uma facilidade de expressar-se mais com o corpo e um jeito sedutor de ser.

  • Música e dança como formas de expressão: com letras de significado cantando o corpo, a negritude, os protestos, a liberdade, com ritmos primitivos, que imitam as batidas do coração e trazem raízes africanas.

  • Ataque como forma de defesa: defesas psicológicas como forma de proteger-se de frustrações e sofrimentos presentes e passados, apresentadas como "medo" do outro, ou seja, o outro é visto como ameaça constante, manifestada nas falas, atitudes e comportamentos.

  • Falta de perspectiva: os desejos eram os mesmos que os dos adolescentes de outras classes sociais (ter casa própria, família, carro, profissão reconhecida, boa situação financeira), porém com consciência das barreiras sociais impostam para quem é negro, sem qualificação específica, não mantendo ilusões acerca da condição desigual de oportunidades, mas com atitude de resignação e desesperança por não acreditarem que sua ação fosse capaz de interferir no curso dos acontecimentos.

  • Contradições frente à realidade: Ao falar sobre transformar a realidade, expressavam-se como agentes de ação: é possível mudar, transformar, criar, resolver. Quando era preciso agir, a realidade era vista como imutável. Ficavam imobilizados diante dos fatos.

  • Percepção das limitações da escola, constatando que a escola não oferecia meios para mudarem de vida, mas reconhecendo que sem ela enfrentariam dificuldades maiores, entendendo a má qualidade do ensino como mais uma evidência da desqualificação a que estavam submetidos. A escola, desta forma, parecia reforçar a desesperança, não desenvolvendo o potencial intelectual dos jovens e suas habilidades de leitura, tornando o mundo ainda mais distante e ameaçador.

  • Preocupação com a inserção no mercado de trabalho para ajudar a família e atender a necessidades pessoais. Alguns adolescentes eram pressionados pela família a trabalhar e outros largavam a escola para se lançarem no mercado de trabalho; a escola, por outro lado, negligenciava as questões do trabalho e da orientação profissional.

  • Papéis de gênero masculino e feminino com limites mais rígidos com aparente reprodução dos modelos que reforçam a separação entre o que é permitido ao homem e à mulher.

    Nos relatos masculinos: o homem pode ter várias mulheres, usufruir de maior liberdade, esquivar-se das funções domésticas, ter direito ao lazer, abandonar as responsabilidades familiares de sustento, presença e afeto, reprimir a sensibilidade e não demonstrar emoções, ter atitudes de "macho" como ter atividade heterossexual constante e iniciada o mais cedo possível, iniciativa perante a mulher e não recusar qualquer insinuação / oferecimento / convite feminino.
    Nos relatos femininos: a mulher é mais respeitada se vinculada a um homem, tem a obrigação de cuidar das tarefas domésticas, assumir os filhos e a educação, ser responsável por evitar a gravidez, estar sempre disponível às solicitações do parceiro.
  • Falta de privacidade na vida pessoal na qual a intimidade era compartilhada e a falta de privacidade era considerada natural. Quem quisesse manter sua intimidade era apontado como estranho ou querendo ser diferente dos demais.

  • Condições de solidariedade como forma de sobrevivência, para garantir ajuda em situações futuras, como forma de preservar o grupo.

  • O papel da religião suprindo necessidades de proteção, pertinência e identidade e também representando a lei, a ordem e a proteção, contribuindo para formação de laços sociais e para o sentimento de pertencer.

  • Forte relação com a mãe com culto à figura materna, amor incondicional, gratidão, desejo de ser motivo de seu orgulho, pois mesmo quando fora de casa por muitas horas, exerce um papel integrador.

  • Ausência da figura paterna, quer por falecimento, separação do casal, dificuldade ou impossibilidade de assumir o papel de pai;

  • Percepção da cidadania como conceito abstrato, entendida como desvinculado da prática do dia a dia. Somente quando direitos e deveres eram percebidos tornava-se possível sair da condição passiva e se assumirem como agentes de mudança, concretizando o conceito de cidadania: cidadão capaz de comprometer-se com a realidade social e sua transformação.

  • A festa do povo - tudo se comemora: com alegria e espontaneidade nas comemorações com manifestações culturais como dança, música e teatro, como forma de se refazer de um cotidiano sofrido e ameaçador.

Alguns aspectos importantes, não puderam ser relatados por falta de uma observação mais sistematizada, mas representam questões que devem ser consideradas. São elas: violência, drogas e marginalidade. Também por falta de dados não foram contempladas informações sobre as comunidades de origem, condições sócio-econômicas e relação com outros segmentos sociais.

Referência(s)

Serrão, Margarida e Baleeiro, Maria Clarice, Aprendendo a Ser e a Conviver, FTD, 1998.

Autor(a)

Adriana Scatone Bezerra

Adriana Scatone Bezerra é psicóloga - CRP 61768 / 06
Consultório na zona Oeste de São Paulo

Contato

Tel. (11) 3022-5674 - ascatone@gmail.com


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