Quem tem medo de envelhecer?

'Para que servem coisas velhas?' Essa pergunta, que parece ingênua, é carregada de um horror surgido na época atual. Porém não deveríamos redimensionar a nossa forma de pensar/agir referentes ao envelhecer?

'Para que servem coisas velhas?' Essa pergunta, que parece ingênua, é carregada de um horror surgido na época atual. Horror originado dos avanços tecnológicos e científicos, além da mudança de pensamento da atualidade, no qual tudo fica ultrapassado e sempre tem algo melhor e mais novo para substituir.

Minha reflexão a respeito do tema fizeram-me perceber que não é apenas um 'manter-se atualizado' que as pessoas buscam. Existem considerações a serem feitas que estão por trás desse pensamento: o horror pode ser uma projeção de temores inconscientes. "projeção - no sentido propriamente psicanalítico, operação pela qual o sujeito expulsa de si e localiza no outro - pessoa ou coisa - qualidades, sentimentos, desejos e mesmo 'objetos' que ele desconhece ou recusa nele. Trata-se aqui de uma defesa de origem muito arcaica, que vamos encontrar em ação particularmente na paranóia, mas também em modos de pensar 'normais', como a superstição." (pág. 374, Laplanche e Pontalis, 1994).

Se projetamos no outro qualidades que não reconhecemos como nosso, tentamos evitar o horror que sentimos ao saber da brevidade da nossa existência. Jack Messy faz a seguinte reflexão "Temos que ter medo da velhice? Fazer a pergunta é reconhecer implicitamente a existência de um temor. Como não ter medo de algo que tem parentesco com a morte? O envelhecer sublinha nossa temporalidade. Então, para prevenir do drama a todo entendedor que procure aí sua salvação, damos a entender que o envelhecimento apenas diz respeito ao velho, e como, de todo modo o velho... é o outro...! Estamos fora das ameaças do tempo." (pág. 12, Messy, 1993).

O envelhecer significa a aproximação da morte, do fim da existência, aonde tudo termina e não tem mais volta... por isso o velho sempre é o outro. O horror que sentimos pelo envelhecimento é o medo de morrer, de se tornar tão repugnante quanto o outro que fica cego, surdo, 'gagá', etc... 'Que horror se isso acontecer!' Mas todos envelhecem, é inevitável (a não ser quem morre cedo demais... por motivos diversos), então o que fazer? Deixar o tempo passar ficar velho e receber o preconceito dos mais jovens? Não!!!

"Nas sociedades ocidentais contemporâneas o prolongamento da vida humana é, sem dúvida, um ganho coletivo. (...) tratar das representações e dos estereótipos do papel do idoso, nesse contexto, é refletir sobre as formas pelas quais a solidariedade pública entre gerações é redefinida contemporaneamente. Estabelecer uma relação entre velhice e solidariedade pública entre gerações é descrever o processo pelo qual a gestão da velhice é progressivamente socializada: durante muito tempo considerada como própria da esfera privada e familiar, uma questão de previdência individual ou de associações filantrópicas, ela se transforma em uma questão pública." (pág. 01, Debert, 1996).

Não podemos esquecer que os avanços científicos e tecnológicos também ajudaram a prolongar mais a vida; mas não apenas isso, contribuiram também para a qualidade de vida dos mais velhos. Um exemplo disso é a possibilidade de se retomar as atividades sexuais quem há muito tempo perdeu o desejo...

"Com isso, é possível inscrever a figura do idosos nas cadeias simbólicas de novas temporalizações, retirando-o do confronto frontal com o 'outro absoluto' que é a morte, capaz então de protegê-lo dos estilos subjetivos da depressão, da paranóia e da mania. Enfim, mediante a psicanálise, fundada no Édipo marcado pela dívida simbólica, o Ocidente constituiu um saber para possibilitar ao sujeito a evocação da memória ancestral e um luto possível em face da inevitabilidade da morte" (pag. 48, Birman, 1995).

Portanto devemos redimensionar a nossa forma de pensar/agir referentes ao envelhecer. Devemos refletir mais sobre nossa concepção de mundo e de homem, tentando evitar o pensamento que a tecnologia impõe de que o novo substitui o velho e que o velho não serve para nada mais. Devemos desenvolver mais atividades com a terceira idade, para a melhora da qualidade de vida da população idosa. Respeitar o velho ou o "outro" é respeitar a si mesmo e significa exercer cidadania.

Referência(s)

BIRMAN, Joel - Futuro de Todos Nós: Temporalidade, Memória e Terceira Idade na Psicanálise in Terceira Idade: Um Envelhecimento Digno para o Cidadão do Futuro, Organizador Renato Veras, Editora Relume Dumará, 1995.

DEBERT, Guita Grin - As Representações (Estereótipos) do Papel do Idoso na Sociedade Atual - Trabalho Apresentado no Seminário Internacional "Envelhecimento Populacional: uma Agenda para o Final do Século" - Auditório do Palácio do Itamaraty, Brasília, 1º a 3 de julho de 1996.

LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J-B. - Vocabulário da Psicanálise, São Paulo: Martins Fontes, 1994.

MESSY, Jack - A Pessoa Idosa não Existe: uma Abordagem Psicanalítica da Velhice, São Paulo: Aleph, 1993.

Autor(a)

Marcos Augusto da Silva Braga

Psicólogo CRP-06/58.148-6
Psicólogo (Faculdade de Psicologia da PUC/SP) especialização em Saúde e Trabalho pelo ICHC-FMUSP e em Psicologia Social das Organizações pelo Instituto Sedes Sapientiae

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