Estar sempre ocupado é uma armadilha

Vários relógios marcando a passagem do tempo
Vários relógios marcando a passagem do tempo

Você está sempre ocupado demais? O exagero no trabalho, stress, tarefas e a rotina não estão deixando sua vida ser mais feliz ou ser melhor? Será que um pouco de preguiça ou tranqüilidade não seriam boas para a criatividade e felicidade? Será que a sua vida merece uma mudança? Estes questionamentos foram feitos em artigo publicado por Tim Kreider no New York Times e que trazemos para você.

Por indicação de meu primo Danilo Bazzo li uma matéria do New York Times que me chamou bastante a atenção. O artigo chama-se "The busy trap" algo como "a armadilha do estar sempre ocupado" ou “Estar sempre ocupado é uma armadilha” escrito por Tim Kreider.

O texto fala sobre o quanto estamos sempre "ocupados" atualmente, inclusive as crianças, e o quanto isto pode ser enganoso e até pernicioso para nossas vidas e nossa felicidade.

Não sei se isto já aconteceu com você mas, muitas vezes, chego a me sentir mal por estar “sem fazer nada”, parece que estou perdendo tempo ou fazendo (ou não fazendo) algo errado.

Uma reflexão interessante presente no texto diz respeito ao nosso trabalho. O quanto ele é realmente útil no sentido de ser uma necessidade para manter a sociedade e não uma mera atividade destinada ao exagero, que se fosse eliminada não faria grande falta. Neste sentido será que nossos recursos como pessoas não seriam muito mais úteis em outras atividades? Aquelas que realmente fizessem sentido ou ajudassem na evolução da sociedade como um todo?

Seriam nossos momentos de ócio, de tranqüilidade ou mesmo de “vagabundagem”, no sentido de não fazer nada, os estopins para a criatividade, para as idéias, para conceber o que ainda não foi concebido ou pensado? Não foi o ócio a fonte inspiradora de muitos dos maiores gênios e que poderia ser também a nossa própria fonte de inspiração e felicidade? Claro que existem limites para isto, basta ver a quantidade de pessoas desocupadas que “inventam“ o que fazer, seja intrometendo-se na vida dos outros, seja criando problemas que não existem. Aqui talvez caiba a palavra “equilíbrio”.

O texto de Kreider é tão interessante que seria um pecado fazer qualquer tipo de resenha e por isto decidi disponibilizar uma tradução livre para os leitores do Ser Melhor.

Coloco apenas uma observação com relação ao início do texto: quando Kreider fala "se você vive na América do século 21" podemos tranqüilamente substituir América, por Brasil, ou qualquer outro país inserido no processo de globalização. Digo isto porque, da mesma forma que Kreider, eu também, ao perguntar para as pessoas “como elas vão” recebo muitas vezes como resposta "na correria sempre" e até eu mesmo me pego com este discurso ao responder a algum amigo.

E você, anda muito ocupado também?

Estar sempre ocupado é uma 'armadilha' por Tim Kreider

(tradução livre por Daniel Mendonça)

Se você vive na América do século 21 já deve ter, provavelmente, escutado várias pessoas dizendo-lhe o quão ocupadas elas são. Esta resposta tornou-se padrão quando perguntamos às pessoas como elas estão: “Ocupado!” “Na correria.”
Isto é, obviamente, uma ostentação disfarçada de queixa e nossa resposta é sempre um tipo de congratulação: “Isto é um problema bom” ou “Melhor que o contrário.”

Repare que geralmente não são as pessoas que pegam várias conduções por dia para chegar ao trabalho ou aquelas que trabalham exaustivamente por um salário mínimo que dizem estar muito ocupadas; o que estas pessoas estão é cansadas, esgotadas. Quase sempre as pessoas que lamentam por estarem ocupadas se auto-impuseram esta situação: trabalho e obrigações que elas começaram voluntariamente, aulas e atividades que elas “encorajaram” seus filhos a fazer. Eles estão ocupados por causa de suas próprias ambições, objetivos ou ansiedade, pois estão viciados em ficar ocupados e lhes é apavorante ter de encarar as coisas se não estivessem tão ocupados para as perceber.

Quase todo mundo que conheço é muito ocupado. As pessoas sentem-se ansiosas e culpadas quando não estão trabalhando ou fazendo alguma coisa para promover seu trabalho. Recentemente escrevi a um amigo perguntando-lhe se queria fazer alguma coisa no final de semana e ele respondeu que não tinha muito tempo disponível mas que se tivesse “rolando algo” que o avisasse e talvez ele pudesse enforcar o trabalho por algumas horas. Eu queria  deixar claro para ele que isto não era apenas uma sondagem sobre uma remota possibilidade de que se ele estivesse disponível qualquer dia destes poderíamos fazer algo mas que na verdade este era realmente um convite para fazer algo, porém este excesso de coisas a fazer é como um barulho ensurdecedor, que não deixa as pessoas ouvirem direito o que as outras estão dizendo, e eu desisti de ficar gritando.

Até mesmo as crianças estão ocupadas hoje em dia com suas atividades extra curriculares. Elas voltam para casa no final do dia sempre cansadas e assim crescem cansadas. Eu fui da geração de garotos que tinha muito tempo livre depois de chegar da aula, sem pais ou parentes por perto, tempo que gastava vendo enciclopédias para fazer filmes que compartilhava com os amigos ou fazendo coisas que me proporcionaram habilidades e insights importantes para minha vida. Aquelas horas livres tornaram-se o modelo que quis seguir pelo resto de minha vida.

Esta histeria que está aí não é uma necessidade ou mesmo uma condição para se viver; é algo que escolhemos para nós mesmos, algo que consentimos. Não muito tempo atrás conversei via Skype com uma amiga que saiu da cidade por causa dos alugueis muito caros e hoje ela mora em uma casa que foi de um artista em uma pequena cidade do sul da França.
Ela se descreve hoje, pela primeira vez em sua vida, como uma pessoa tranqüila e feliz. Ela consegue fazer todo seu trabalho sem ocupar o dia todo ou esgotar seu cérebro por completo. Ela diz que se sente como no colégio, cercada de amigos que vão com ela ao café todas as noites. Ela até tem um namorado. O que havia assumido erroneamente como sua personalidade (ocupada, ansiosa, triste) mostrou-se um efeito do ambiente em que vivia. Não que devamos necessariamente viver desta forma, assim como não queremos ficar presos nos engarrafamentos, no meio de multidões ou vivendo sob a crueldade dos colégios, isto são coisas que coletivamente forçamos as pessoas a fazerem umas contra as outras.

Estar sempre ocupado serve como um tipo de afirmação existencial, uma barreira contra o vazio; obviamente sua vida não pode ser tola, trivial ou sem sentido se você é muito ocupado, com muitos compromissos, com coisas a fazer a cada minuto de seu dia. Conheci uma mulher que trabalhava para uma revista em que não conseguia almoçar fora, pois ela podia ser solicitada com urgência a qualquer momento. Era uma revista de entretenimento cuja “raison d’être” (razão de existir) era algo como evitar o botão “menu” dos controles remotos, ou seja, é difícil conseguir entender o porquê desta pretensa necessidade de constante urgência se não como uma forma institucional de “auto-ilusão”.
Cada vez menos neste país* alguém faz  alguma coisa realmente tangível; acredito que se seu trabalho não for um dos executado por um gato ou uma jibóia dos livros infantis de Richard Scarry, não sei se acredito que seu trabalho seja realmente necessário. Não me espantaria se todo este cansaço histérico for uma maneira de encobrir o fato de que muito do que fazemos realmente não tem importância.

Não estou ocupado. Sou a pessoa mais preguiçosa e menos ambiciosa que conheço. Como muitos escritores me sinto como um patife que não merece viver se não escrever por um dia, mas, ao mesmo tempo, sinto que quatro a cinco horas de trabalho por dia é o suficiente para viver por mais um dia. Nos meus melhores dias escrevo pela manhã, saio para um passeio bem longo de bicicleta, caminho sem destino à tarde e à noite encontro meus amigos, leio ou assisto filmes. Acredito que esta é uma rotina, pelo menos para mim, sã e prazerosa. Se alguém me telefona e pergunta se quero dar um tempo do trabalho e ver uma exposição nova no museu, “secar” as meninas no Central Park ou beber o dia todo, eu direi: “quando?”

Mas nos últimos meses, por causa de minhas obrigações profissionais, comecei a ficar realmente ocupado. Pela primeira vez pude falar para as pessoas que estava “muito ocupado” para fazer isto ou aquilo com elas. Percebi porque as pessoas gostam de reclamar tanto desta maneira; isto faz você se sentir importante, procurado e requisitado. O problema é que eu odeio ser uma pessoa ocupada. Todo dia, pela manhã, minha caixa de e-mails está lotada de pessoas me pedindo para fazer coisas que eu não quero fazer ou com problemas para eu resolver. Isto se tornou cada vez mais intolerável para mim até o ponto em que finalmente fugi para um lugar distante, de onde escrevo este texto.

E aqui estou eu, sem ser molestado por obrigações.
Não tenho nenhuma TV.
Para ver os e-mails tenho que ir até a biblioteca.
Por uma semana não vi ninguém que eu conhecesse.
Me lembro apenas dos botões de ouro, percevejos e das estrelas.
Leio bastante.
E finalmente tenho algo realmente escrito pela primeira vez em meses. É difícil encontrar algo para se dizer sobre a vida sem estar completamente imerso no mundo, mas é praticamente impossível perceber o que poderia ser, ou a melhor forma de dizer isto, sem dar o fora dela novamente.

Ociosidade não são apenas férias, indulgência ou mau hábito; ele é indispensável para o cérebro assim como a vitamina D é para o corpo, e privado dele sofremos mentalmente assim como um raquitismo. O espaço e a quietude que a ociosidade provê é uma condição necessária para que possamos ver a vida como um todo, para fazer conexões inesperadas e esperar a inspiração tomar nossa alma - ele é, paradoxalmente, necessário para terminar qualquer trabalho. “Divagar é frequentemente a essência do que fazemos,” escreveu Thomas Pynchon em seu ensaio sobre a preguiça.
O “Eureka”  de Arquimedes no banho, a maçã de Newton, Jekyll e Hyde e o Anel de Benzeno: o passado está cheio de histórias de inspiração que vem em momentos de ociosidade e sonho. Isto pode nos fazer pensar se a preguiça, tranqüilidade, boa vida e etc. não são responsáveis pelas maiores invenções, as melhores idéias ou as maiores obras de arte que o trabalho duro talvez não conseguisse realizar.

“O objetivo da vida no futuro é não existir trabalho, então poderemos brincar. É por isto que temos de destruir o atual modelo político-econômico.” Isto pode soar como o discurso de algum destes anarquistazinhos que existem por ai, mas na verdade foi Arthur C. Clarke quem disse isto, que encontrou tempo entre um mergulho e uma jogatina de pinball para escrever “Childhood’s End” e pensar sobre as comunicações via satélite. Meu antigo colega Ted Rall recentemente escreveu um artigo propondo abandonar nossos salários e garantir um pagamento a todos os cidadãos, o que soa meio lunático, sendo que esta idéia fazia parte do que era considerado como um dos direitos humanos básicos há um século atrás, assim com a abolição, sufrágio universal, e as oito horas de trabalho semanal. Os puritanos transformaram o trabalho em virtude, evidentemente esquecendo que Deus o criou como uma punição.

Talvez o mundo acabe encaminhando-se para a ruína se todos se comportarem como eu. Mas eu diria que a vida ideal estaria entre minha indolência provocadora e a correria desenfreada do restante do mundo. Minha função é apenas ser uma má influência, ser como aquele garotinho que fica na janela do lado de fora da sala de aula fazendo caretas para você, que está sentado na carteira, incitando-o para que somente desta vez peça licença e saia da sala para brincar lá fora. Minha ociosidade resoluta tem sido mais uma luxúria do que uma virtude, mas tomei uma decisão consciente, há muito tempo atrás, de optar pelo tempo ao invés de dinheiro, desde que compreendi que o melhor invertimento de meu limitado tempo na terra seria gasta-lo com as pessoas que amo. É possível que em meu leito de morte me arrependa por não ter trabalhando mais e assim poder dizer tudo que eu tinha de dizer, mas imagino que, na verdade, o que desejarei de verdade é tomar mais uma cerveja com Chris, ter mais uma daquelas longas conversas com Megan e uma última boa gargalhada com Boyd. A vida é muito curta para desperdiça-la sendo tão ocupado.

*Estados Unidos é o país a que se refere o autor

Referência(s)

  • http://opinionator.blogs.nytimes.com/2012/06/30/the-busy-trap/

Autor(a)

Daniel Pereira

Formado em Física / Astrofísica pela Universidade de São Paulo. Fez cursos nas faculdades de Filosofia, Geologia e Matemática na Universidade de São Paulo. Fez cursos na área de artes plásticas e história da arte no Centro Cultural São Paulo. Também frequentou o curso de Introdução a Psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae. Atua na área de tecnologia e web desenvolvendo soluções voltadas para várias áreas do conhecimento, incluindo pesquisa com redes sociais. Atualmente atua para um grande portal de notícias.

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